"Monocrômica, anacrônica, atraente, arcaica Antonina, não amo-te ao meio, amo-te à maneira inteira."
Edson Negromonte.



terça-feira, 18 de setembro de 2012

PESSOAS DE BEM

Li um comentário na postagem “O Sepulcro Caiado” que me deixou, no mínimo preocupado. Quem comentou, de maneira muito clara, culpa o dependente químico pelo tráfico. De certa forma e sem analisá-la profundamente posso afirmar que ele tem razão,  mas na luz da realidade e pelo contexto do problema concluo que se tratada de alguém que sente medo.
Sem querer ser leviano com quem comentou, a colocação, me parece,  um tanto medieval, época em que trancavam os loucos em manicômios e os hospícios, porque não sabiam de que maneira tratá-los. Neste mesmo blog li muitos comentários, nos quais exigia das autoridades a retirada da turma do litro da Feira-mar, para que o visitante e turista não fossem admoestados por aqueles “vagabundos”. Duvido que se uma pesquisa perguntasse sobre o que governo deveria fazer com as pessoas que vivem à margem da sociedade, o resultado, na sua maioria, seria baseado no direito constitucional da pessoa humana.
Como vivemos numa sociedade do medo, a primeira resposta era tirá-los das ruas, baseada no pré-conceito de que elas prejudicam os negócios e quebram a estética da cidade. Essa postura geralmente provém de pessoas de uma classe média tradicional que estudou e lutou para construir seus negócios, que paga pesados impostos e que se desdobra para dar aos filhos um bom estudo. Mas por um outro lado é a mesma classe média massificada que age em conformidade com os ditames das classes dominantes e que é vítima da própria insegurança, porque imagina que algum governo vai lhe tirar o pouco que conseguiu ou que algum bandido lhe pegue, de súbito, dentro da sua casa. A tradicional classe média pensa e atua com base na ideologia do medo, e torna-se egoísta quando vê que seus impostos escorrem pelos ralos da máquina pública, da corrupção e das políticas assistenciais para os pobres.
A meu ver, tudo isso é reflexo do aumento do ônus social, proveniente do desmantelamento do Estado pelas políticas econômicas neoliberais, implantadas, com ênfase, nos anos 80 e que tornou o Brasil o campeão mundial da desigualdade social e da violência. Para se ter uma ideia, nos anos de FHC 20% da população mais pobre representava 5% da renda do Brasil, enquanto os 20% mais ricos correspondia a quase 2/3 dessa riqueza. Durante o delírio neoliberal e privatista, o Brasil enfraqueceu suas instituições, ampliou sua desigualdade e, conseqüentemente, a violência, muito por conta da socialização das drogas e a tímida, quase constrangedora, política social neoliberal. É claro que essa situação não é contexto, mas serve de parâmetro para que possamos visualizar o problema.
A política neoliberal e o aumento da pobreza são fatores que sempre andaram juntos, embora em áreas diferentes. A acentuação da pobreza e do desemprego, Lula obrigou-se a implementar os programas assistenciais existentes e ampliá-los, com o intuito de diminuir o déficit social herdado dos governos anteriores. O Brasil de Lula e agora o de Dilma entendeu que era preciso privilegiar a mão-de-obra, dar ganhos reais aos trabalhadores, diminuir a pobreza e implantar políticas públicas para que as pessoas tivessem acesso ao consumo. Na contra-mão de FHC, Lula e Dilma partiram para a política do pleno emprego, com o intuito de garantir a estabilidade econômica, se por ventura o país tivesse que enfrentar alguma crise. De uma maneira geral os planos de Lula surtiram efeitos, mas a classe média, sentindo-se abandonada, desesperadamente vendo-se refém da violência e seus impostos escorrem pelos ralos da corrupção, trancou-se em casa para se proteger do Armagedom.   .   
A sociedade do medo, que há anos tomava corpo, aumentou o preconceito, exacerbou o egoísmo, iniciou o processo da desmoralização das instituições políticas e a segregação social, através do xenofobismo, da homofobia e da higienização. Na verdade foi uma maneira que a classe média, guardiã dos valores morais, encontrou para se vingar de Lula, pois o consideram o espelho que reflete a imagem daquela "ralé". Esse quadro se deve muito aos meios de comunicação que, por falta de um comprometimento moral, incentivam a ideologia do medo e inibem o povo, principalmente a classe média, a uma maior e melhor visualização de novas perspetivas.     
Baseada nessas premissas a classe média começou a exigir tudo (ou quase tudo) para si, porque acha que os impostos que pagam deveriam retornar em forma de benfeitorias para si próprio. Por essa razão atacam as políticas assistenciais, o Prouni e a bolsa família para os pobres, porque são incapazes de olhar as coisas pela perspectiva do outro. Essa postura segregacionista induziu, muitas vezes, os prefeitos a adotarem medidas de exclusão, como no caso da turma do litro, aqui em Antonina, e demais mendigos que sofrem com o êxodo canalha de muitos prefeitos. Para essa gente de classe média basta tirá-los de lá e pouco importa o que será feito com eles, porque acham que política pública é para quem paga impostos e não para aqueles considerados isentos de cidadania e direito.
Assim é com os dependentes químicos e traficantes, como foi dito no comentário que me referi no início. Culpar o tráfego pelo prisma do dependente, embora, a priori, tenha lógica, prova o quanto são individualistas e incapazes de avaliarem as consequências para si próprios, se não houver política pública. Essa indisposição humanista de não se comprometer com o outro é uma fuga da capacidade de pensar e da inexistência de senso crítico. Por essa razão colocam no mesmo cesto o dependente e o traficante, o desempregado e o vagabundo, o miserável e o ladrão, o homossexual e o pervertido, porque para essa gente basta saber que o “esgoto social” não mais passará em frente à sua rua e nem inundará os espaços públicos das “pessoas de bem”.

23 comentários:

Henrique Dias disse...

Este tema é ótimo e vai dar debate interessante que espero ser produtivo e informativo para todos.
Bem no post anterior um dos comentários falava da época em que Antonina( na sua maioria) era de esquerda ou seja PTB. Cabe lembrar que foi o Presidente Vargas quem criou as Leis Trabalhistas, consideradas na época muito avançadas inclusive para E.U. e Europa.
Na realidade o povo idolatrava Getúlio, porém o dito cujo teve fim trágico. A elite o detestava e deu no que deu. Atualmente Lula e Dilma, com seus programas sociais de combate a fome, facilitando a entrada do pobre nas Universidades, etc., incomodam novamente a elite,e também e alguns países do hemisfério norte. Isto se vê claramente na mídia, que presta o seu serviço de vassalagem de forma magnífica. Entretanto a grande verdade é que enquanto o Brasil reduz seus índices de pobreza e miséria, outros países veem seu modelo Neoliberal indo para o brejo. A pobreza nunca foi tão grande nos E.U. a quantidade de dependente químicos no Japão e na Europa é estarrecedora. Li hoje que a Suécia é a campeã mundial de estupros. Na Ásia a prostituição infantil é um câncer.Enfim o mundo inteiro está entrando em colapso social e econômico.
Vejo com muitas esperanças o esforço do Governo Federal para melhorar as condições de vida do povo brasileiro. Entretanto, reconheço que não basta, é necessário que Estados, Municípios, Poder Legislativo, Poder Executivo e a Sociedade, também colaborem, parando com as mazelas e façam sua parte e sobretudo esta mídia venal seja estirpada.

Sonia Nascimento disse...

Interessante, comecei um comentário e o perdi, irremediavelmente. Cada vez que isso acontece eu acabo desistindo de continuar, mas é muito pouco o que tenho a dizer, portanto vou insistir: O GF tem um programa para enfrentar o CRACK. Pode parecer campanha, pode parecer oportunismo. eu quero mais é que quem pensa assim se lixe (*!¨#). Só quem passa pelo processo sabe o que é. http://www.brasil.gov.br/enfrentandoocrack/plano-integrado. Pronto, consegui.É a terceira tentativa. Tomara que seja aceita.

Amigos do Jekiti disse...

Sônia, as tentativas do governo esbarram na polêmica que há entre a internação compulsória e os que defendem o direito constitucional da liberdade e da escolha individual.
Infelizmente nenhuma política anterior e atual atende a necessidade do dependente químico e da sua família,
Os CAPS, infelizmente foram corrompidos e o de Antonina vai ser senão mudarem a política de saúde e a forma de tratamento. O grande problema do CAPS é que ele permite que o dependente retorne ao lar, depois de algumas horas na semana, recebendo ajuda terapêutica. No trajeto entre o CAPS e a casa, o dependente químico é levado pelo vício a se drogar, retardando o processo de tratamento e cura. Outro fator importante são os feriados prolongados quando boa parte dos dependentes não retorna ao tratamento psicossocial. Outro problema está no oportunismo de alguns que, para garantir uma renda, se propõem a um período de tratamento exclusivamente para receber o Auxílio-Doença, com o pagamento do benefício – que geralmente dura entre seis meses e um ano - fogem do tratamento.
A prova que nenhuma política antidrogas funcionou nestes quase 20 anos é o aumento do tráfego e do número de dependentes.
É preciso que haja um conselho municipal atuante e uma lei que garanta aos pais a cobertura do Estado e para tal é inevitável que os casos de risco social tenham a atuação direta do Ministério Público para que determine a internação a revelia do dependente, desde que haja critérios médicos e sociais para essa intervenção.
Se Antonina não entender dessa maneira, o CAPS que se instalou será corrompido, porque não define critérios quem está ou não em eminente risco social, pois, a priori, deixa nas mãos do dependente de alto risco a decisão do tratamento.
Cabe ressaltar, querida Sônia, que todo o tratamento visa a reinclusão social do dependente e, mais: é preciso que este tratamento seja amplo, porque em muitos casos os problemas neurológicos são preponderantes para que a pessoa não se torne um refém da droga.
Tem um exemplo muito esclarecedor para isso:
Para uma pessoa que é dependente químico e rouba cavalo. Pouco adianta curá-lo do vício da droga se ele continua a roubar cavalos.

Sonia Nascimento disse...

Veja no meu blog o programa do GF para enfrentamento ao crack. Embora pareça uma propaganda de campanha, vc precisa pensar que quem pensou em incluir isso no programa de governo de Antonina tinha em mente o sofrimento que cada família enfrenta quando um membro fica refém de uma droga, seja ela qual for.

Sonia Nascimento disse...

O que vc sugere? Eu não entendo os meandros de leis, sou d

aquelas leigas que preferem sair fazendo. Como é que se resgata o ser humano das drogas?
Como pode agir, sem muitos issos e aquilos, o CAPS de uma cidadezinha, pra trazer de volta a criatura? Porque é isso que importa. A gente sabe que a pessoa não vem inteira, uma parte já se perdeu, mas como a gente faz?

Amigos do Jekiti disse...

Sônia,
1 - Mudar o modelo dos CAPS e transformá-los em clínica.
2 - Conselho municipal antidrogas que tenha uma estratégia de tirar das ruas os casos que envolvem risco social.Esse conselho deve ser formado por profissionais da saúde mental, ministério público e segurança. O primeiro define os casos que envolvem risco social, o segundo determina a internação e o terceiro intervém diretamente, se for o caso, para que a pessoa seja internada a revelia.
3 - Criar uma clínica municipal que atenda esses casos e que tenha como meta a reingresso social. As clínicas devem seguir um modelo de tratamento com base nos 12 passos definidos pelos narcóticos anônimos. Homens e mulheres devem ficar separados ou em clínicas diferentes, devido as peculiaridades que envolvem cada sexo. Se for necessário criem convênios com as existentes.
4 - O interno passará por terapia, com o intuito de trabalhar seu eu interior, e químicos para os problemas de neurológicos, não só objetivando a cura da dependência, mas as questões psicossociais que envolvem o indivíduo.
5 Cada interno ficará afastado do convívio social e afetivo, pelo prazo mínimo de seis meses.
6 - Se tirarmos das ruas os dependentes mais graves, diminuirá o tráfego, pois quem os alimenta são os que mais correm riscos sociais.
7 - em conjuntos com essas medidas é preciso montar políticas preventivas, como educação integral, cursos profissionalizantes, a criação de espaços para esporte e lazer, ou seja, criar meios para que a criança e o jovem tenham perspectivas de melhoria de vida.
Obs: se eu lembrar de mais alguma coisa eu escrevo.

Anônimo disse...

Tudo se resume num único problema:- QUANTO CUSTA??? O que Vs. querem e como querem tem um preço muito alto. Aqui em Antonina tem clínica para drogados. É clínica de alto padrão. (fica subindo a estrada do Saívá, chegando na segunda chácara do Pague Menos, pega a curva para a esquerda, passa em frente a uma grande mansão, desce o vale que vem depois e lá está ela. A familia dos drogados, ouvi dizer que pagam CR$3.000,00. Isso mesmo: tres mil reais por mês....

A prefeitura podia montar uma igual àquela.... ou, quem sabe, celebrar 'convênio' com eles, reservando lugar pra uns duzentos drogados que tem aqui no reino, se é que não tem mais ......

Não adianta falar sobre o ideal, se o real($$$$) não 'guenta'. Antonina é município muito pobre. Inda por cima tem que sustentar 'sanguessugas' com práticas nebulosas e pouco recomendáveis. Não tem dinheiro para o que Vs. querem, a não ser que se 'feche' a cidade e só se faça isso.
O agravante é que o número desses descaminhados é sempre crescente. Já virou endemia.

Anônimo disse...

a turma do litro é um 'causo'. Há municípios do interior que os 'despejam' no litoral.
Se espalhar a notícia de que aqui tem serviço social pra eles (hipotese), a "exportação" pra cá vai aumentar um bocado.

Vamos fazer o seguinte:- a gente dá pra eles o endereço do Henrique e da Sonia que lá tem cama e comida das boas.

Anônimo disse...

Jekiti, vai me dizer que V. nunca fumou um 'baseado'?????
Nunca deu uma 'cheirada' só pra ver como é que é???

Amigos do Jekiti disse...

meu caro, se Antonina construiu um hospital pode muito bem construir uma clínica. Existe parceria com iniciativa privada, inclusive patrocínios. Esse lance de município pobre para construir coisas é desculpa de político que não quer fazer. O Governo Federal tem programas para tudo e dotação orçamentária.

Henrique Dias disse...

Ao amigo anônimo, que quer fornecer meu endereço, respondo que tudo bem.
Saberei encaminhar aqueles que me procurarem. Com relação a isto informo que já faço semanalmente trabalho de voluntariado, pois pelo fato de ter estudado e trabalhado muito, hoje tenho condições de fazer alguma coisa pelos que necessitam. Assim como o amigo, ninguém pode prever o dia de amanhã. Não é isto?

CHARLES LACERDA disse...



ANAUÊ!!!!!ANTONINA.

Amigos do Jekiti disse...

Pelo jeito o amigo é integralista.
A propósito, em Antonina o integralismo era forte.
Meu pai conheceu alguns.

Anônimo disse...

Mania de descer o cacete na classe média.
Mania que descer o cacete no povo.
Mania de descer o cacete nas 'elites'

NINGUÉM PRESTA PRA VOCEIS!!!

A que classe Vs. pertencem??? Alta, excepcional, baixa ou nenhuma????
Eu acho que Vs. pertencem à classe dos chatos, deuses do olimpo que não têm o que fazer e que ficam de lápis e papel na mão passando receituário de 'óleo de rícino' pra todo mundo tomar.

No mais puro estilo cekineliniano, digo que todos Vs. merecem ir à merda!!!!!!!!!!!!

CHARLES LACERDA disse...




ANAUÊ!!!!!Anônimo das 00:22hrs

JASON BOURNE disse...




PHUDEU O 45.

Anônimo disse...

Em nosso país temos mais de 40 milhoes de analfabetos funcionais,a maioria gente simples e honesta,este é o maior problema deste País a educação...

Luiz Henrique Ribeiro da Fonseca disse...

Concordo com você. No meu ponto de vista estamos melhorando, a passos lentos, mas estamos. Melhoramos nos índices educacionais, mas a caminhada é longa.
A título de informação, Brizola revolucionou a educação no RS e RJ. Hoje o gaúcho não é um povo analfabeto, mas isso foi há quase 50 anos.
abraço

Anônimo disse...

Jekiti, cê tá precisando sofrer um ou outro "assaltozinho" pra ver se suas idéias de bondade resistem a esse trauma.
cê precisava sentir, como eu já senti duas vezes, o que significa um 'coitadinho' de um drogado te cutucando com o cano de uma 9 mm na orelha, pra voce tirar tudo do bolso e por na bolsa dele.... Depois disso, eu acredito na tua 'sociofilia'....
Por incrível de pareça, coisa parecida me aconteu aqui, na feiramar, quando um da turma do litro queria me obrigar a dar $$$ que ele precisava pra manguaça..... Gritava revoltado e dizendo que '...só assaltando mesmo'.... Vai lá, vá Você e a Sônia cuidar dos coitadinhos, vá.... beijo e abraço pra eles....

Amigos do Jekiti disse...

Meu caro, a questão aqui já foi colocada. O problema que aconteceu com você é de segurança pública. Se uma pessoa da "turma do litro" cometer um delito deve ser punida pela lei. Espero que você concorde com as mesmas penas para os filhos das "pessoas de bem" que agridem mendigos, Índios, homossexuais, só por divertimento. A violência, meu caro, é difusa.
Outra coisa: Espero que você nunca veja um filho dependente agarrar em seus braços e lhe pedir, desesperadamente: "pai, me ajude! Eu não estou aguentando"!

CHARLES LACERDA disse...





ANAUÊ!!!!ANÔNIMO DAS 21:25

Anônimo disse...

Pois é... assaltaram ,arrombaram a casa da dona Lourdes ,la no tucunduva de cima ao lado da peixaria da bete.O menor ja conhecido da pólicia é usuario e viciado em drogas,ele nem se preocupou com o barulho que fez ao quebrar os vidros das portas que eram de ferro e que fizeram muito barulho chamando a atençao dos vizinhos,a coitada nao pode mais sair de casa p trabalhar(ela tem 70 anos)ficou no prejuizo material e nao tem como reformar sua casinha,crime covarde,logo este delinquente juvenil ,estara nas ruas roubando novamente e se vc reagir pode ser o proximo morador do cemiterio local...

Anônimo disse...

fala pra Sonia levar 'melzinho' pro vagabundo que arrombou a casa da velhinha....

O JEKITI NOS ANOS 60 - foto do amigo Eduardo Nascimento

O JEKITI NOS ANOS 60 - foto do amigo Eduardo Nascimento