"Monocrômica, anacrônica, atraente, arcaica Antonina, não amo-te ao meio, amo-te à maneira inteira."
Edson Negromonte.



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domingo, 20 de março de 2011

A DOR E A OPORTUNIDADE

Parte 2

AÇÕES COORDENADAS

Olhamos para nossa dor como se ela fosse a única. Nossa visão para dentro da nossa bolha reflete o quanto estamos despreparados, com razão, para enfrentar problemas mais sérios. Não estou aqui culpando administrações, pois ninguém seria capaz de imaginar que tal calamidade poderia acontecer em nosso litoral. Quando pedimos ajuda para Antonina, pedimos porque é a nossa cidade, porque a nossa gente está sofrendo, mas esse pedido carece de uma analise mais profunda e realista da situação das cidades atingidas.
As propostas que li no blog do Bó (clique para ler) é um caminho e elas, naturalmente, seguirão um trâmite para chegar às mãos de quem tem a capacidade e poder de decisão. Porém, para qualquer medida, antes é preciso um conjunto de ações coordenadas com o intuito de captar recursos para as devidas necessidades e estudos. Toda ajuda e propostas passam por certas regras e estas devem seguir não só o critério solidário, como também o político, sendo este o mais importante. Digo ser o mais importante porque cada cidade atingida pela calamidade tem suas lideranças e estas são os instrumentos de aquisição de recursos. Mas para isso deve haver uma estratégia e esta deve passar, em primeiro lugar, pela união das forças políticas locais. Como cada cidade atingida tem problemas em comum, a maneira mais eficaz de captar os recursos é através da criação de um consórcio, cuja atribuição é coordenar as ações necessárias, devido aos trâmites burocráticos e às determinantes legais.
Não afirmo que o viés político é o único caminho, embora considere o principal. A sociedade civil organizada tem um papel fundamental subsidiando o consórcio com informações, propostas e levantamentos, principalmente aqueles que sofreram e sofrem com a calamidade. A situação dos desabrigados, infelizmente não é o único problema a ser pensado e resolvido. Há também o impacto social e econômico - este pela demora do escoamento da safra de soja, aquele pela crise do turismo. Como a economia do litoral depende das estradas é imperativo que se priorize a reparação das vias de acesso e depois se estude outras alternativas mais seguras (Interportos e uma nova ligação com a BR 116).
Em relação a crise do turismo, imediatamente as entidades responsáveis devem elaborar ações, promoções e subsidiar as autoridades com o intuito de adotarem medidas emergências para a sobrevivência dos seus negócios e, consequentemente, a garantia de trabalho dos seus empregados. É obvio que as propostas devem partir da administração local em conjunto com a Aestur, com o intuito de levá-las ao Governo do Estado e, através da secretaria de turismo, desencadear ações pertinentes para sobreviver a crise.  
Portanto, a situação é grave, pois cada ação está condicionada a outra e levará tempo para as coisas entrarem nos eixos. Mas esse tempo exige algumas condicionantes e a principal delas é a estratégia a ser adotada para a chegada desses recursos, cuja premissa está nas ações coordenadas das lideranças políticas da região.

sábado, 19 de março de 2011

A DOR E A OPORTUNIDADE

PARTE 1

A vida nos ensina o significado da dor e o dinamismo dessa verdade pode nos trazer uma nova vida. Sofrer é inerente ao ser humano e esta constatação muitas vezes é deixada de lado porque nós, seres humanos, estamos muito mais preocupados com a efêmera felicidade. Esta verdade sempre vagou sobre nossas cabeças esperando o momento propício para ser revelada e através dela oportunizada.
Os tristes acontecimentos em Antonina e nas demais localidades do litoral podem ser a chave para abrir a porta da nova era, desde que saibamos aprender a lição que só o sofrimento pode nos dar. É obvio que para alguém que gozava da suprema tranqüilidade esse duro golpe fará do antoninense um povo mais preocupado, tomado pelo medo, inseguro em relação ao futuro. Mas isso faz parte do processo e nos remonta, tempo depois, para algo maior, porque a vontade e desejo de sobrevivência é tão inerente ao ser humano quanto o sofrimento.
Essa perplexidade, aposto, não foi "privilégio" do povo comum. É bem provável que o executivo e legislativo sentiram o golpe e ambos ficaram perdidos no meio de tanto de caos. A falta de experiência em tragédias como essa leva à perplexidade, à impotência, embora não as considere uma justificativa para a falta de ação das lideranças em lidar com a crise. Neste aspecto, para não ser vago, considero como falta de preparo a inexistência de meios adequados que possam subsidiar a necessidade de recursos para, inicialmente, amenizar a crise e depois, com base em levatamentos, reinvindicar os recursos necessários.
Logicamente deve haver uma estratégia e essa passa, de imediato, por duas situações reparatórias. Em conjunto com a construção das casas, reconstrução das pontes, reparação de estradas e serviços, deve a administração adotar medidas para ajudar àqueles que vivem essencialmente do turismo, como nos casos de bares, restaurantes e rede de hotelaria. Essas medidas reparadoras devem ser sustentadas enquanto durar o período de reconstrução das casas, da assistência aos que sofreram com as chuvas e de reparação das vias de acesso à Antonina.
Mas essas medidas reparadoras devem seguir outra diretriz, a qual é fundamentada numa política desenvolvimentista baseada na criação de um mecanismo que permita a valorização do trabalho e emprego. A concepção básica e fundamental reside não só na implantação de uma política voltada para o turismo do centro da cidade e sua já conhecida gastronomia e prédios históricos. Essa política deve se estender para outras regiões, potencialmente capazes de atender àqueles que preferem o turismo ecológico. O recanto do Rio do Nunes, o Rio Cachoeira, o Cacatu e o Bairro Alto, são lugares ideais para a implantação do turismo ecológico. Mas esta política deve seguir alguns ditames, cujas diretrizes estão alicerçadas em planos de infraestrutura de estradas e de espaços naturais, projeto estético e paisagístico, pessoal treinado para orientar e atender a necessidade dos visitantes e locais adequados para hospedagem, etc.. Com essas medidas a região se desenvolve e através do turismo sustentável a população tem a oportunidade, inclusive, de gerir seus próprios recursos.
Eu sei que a tecla do turismo foi incessantemente batida e até certo ponto tornou-se uma espécie de óbvio ululante capelista, mas não há como negar esse potencial e muito menos descartar qualquer política desenvolvimentista que não passe pelo turismo. Ela, como todos sabem, é uma fonte de divisas para o município e entendê-la como pequena é no mínimo uma irresponsabilidade ou falta de visão.
As ideais são muitas, a Aestur e Secretaria de Turismo, mal ou bem, são os órgãos a serem ouvidos e chaves principais para a eleboração do projeto turístico para Antonina. Essa é uma verdade inexorável e ela paira sobre nossas cabeças, esperando pelo momento propício de transformar a dor de nossa tragédia em uma grande oportunidade para melhorar nossa autoestima e abraçarmos o novo tempo.
Cabe ressaltar que a política desenvolvimentista proposta não passa apenas pelo turismo e sim pela criação de mão-de-obra capacitada para atender outras áreas, cuja cultura e experiência Antonina tem. Refiro-me ao Porto, ao terminal do Felix e algumas alternativas, via incentivo fiscal, para atrair novas empresas, porém desde que se tenha uma política de trabalho e emprego, baseada na formação de mão-de-obra local para este fim... Mas isso é outra história e fica para depois.
Para concluir gostaria de lembrar aos leitores que a história nos prova e nos ensina que muitos países que passaram por tragédias, tornaram-se grandes potências, porque souberam fazer da dor suas grandes oportunidades.

quarta-feira, 16 de março de 2011

O FIM DOS TEMPOS UMA OVA

Todos sabem que o povo de Antonina vive o momento mais difícil de sua história. Foram, infelizmente, duas mortes e dezenas de casas destruídas pelas forças das águas. Em meio ao medo de todo inusitado, notícias aparecem do nada e rompem o dia como um tsunami. Mas vamos aos fatos: Ontem saiu uma notícia que espantou a todos e desencadeou uma série de manifestações histéricas, motivada por um rumor de que uma onda gigante (de quatro metros) se aproximava de Antonina. A correria foi grande, obrigando o pessoal de a Defesa Civil deixar seus importantes afazeres para acudir os misericordiosos que gritavam aos quatro ventos o fim dos tempos. Claro, foi alarme falso ou brincadeira de alguém que vive do ócio criativo. A única possibilidade de ocorrer uma onda devastadora em Antonina é se Erasminho Araponga entrar na maré e soltar um dos seus peidos nada indulgentes, fato este que, segundo sua família, não ocorreu, porque nosso querido Erasmo não é chegado a um banho... de maré.
Meus amigos, eu peço calma. Antonina é uma cidade sem pecado. As trombetas não vão estrugir. Não precisam oferecer suas filhas a forasteiros temendo a ira do Altíssimo e muito menos pagar indulgências para garantirem a escada que os levará ao paraíso. Fiquem calmos, pois Antonina não será engolida por ondas catastróficas e muitos menos os pecadores irão virar estátuas de sal, pois a única relação que nossa cidade tem com Pompéia é através do amigo “maravilha”, cujos delitos não chegam a levantar uma onda de 20 centímetros.
Pessoal, deixem a Defesa Civil realizar seus trabalhos. Nessa hora é mais importante botar a mão na lama que na Bíblia.

Ministro da Integração Nacional vai ao Paraná avaliar estragos da chuva

Uma reunião, em Brasília, nesta terça-feira (15), entre o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho, o prefeito de Paranaguá, José Baka Filho, o prefeito de Antonina, Carlos Augusto Machado (Canduca), e o prefeito de Morretes, Amilton de Paula, definiu que o primeiro passo para a liberação de recursos federais para a reconstrução das cidades atingidas pela chuva no litoral do Paraná será uma visita do ministro Coelho a região.
O ministro vai sobrevoar a as cidades atingidas, nesta quarta-feira (16), e avaliar os estragos para em seguida definir valores. A verba será repassada via governo estadual. Os prefeitos deverão entregar para o ministro um relatório exemplificando as consequências e as prioridades de cada cidade.
Desde quinta-feira (10), a Baía de Guaratuba, no litoral do Paraná, sofre com os danos causados pelas fortes chuvas que atingiram a região. As cidades mais atingidas foram Antonina, com duas mortes, e Morretes onde uma pessoa morreu. O número de desabrigadas nas cidades passa de mil e o governador do Paraná, Beto Richa, decretou nesta terça-feira, estado de calamidade pública. Em Paranaguá, onde 150 moradores estão desabrigados, o prefeito Baka decretou situação de emergência na sexta-feira (11).

Chuvas no litoral

Na avalição dos prefeitos a reunião, que também contou com a participação de deputados federais do Paraná, representantes do governo do estadual e da senadora Gleise Hoffmann, foi satisfatória. “Senti uma firmeza do ministro e uma vontade política de resolver”, afirmou o prefeito paranaguara. Baka ressaltou que a prioridade para Paranaguá são as pontes da cidade porque 13 caíram e outras dez precisarão de reparos. Além do restabelecimento do fornecimento de água na cidade.
O prefeito relatou também que 80 km de estradas rurais foram destruídos e 100 km de vias urbanas foram danificados por causa dos alagamentos. “Sem a ajuda do governo federal, nós não vamos conseguir absolutamente nada”, disse o prefeito de Morretes, Amilton de Paula. O prefeito mencionou que não falta apoio político para que as ações de recuperação comecem a ser realizadas.
No caso de Antonina, segundo o prefeito Canduca, os recursos que virão do governo federal serão destinados, prioritariamente, para a construção de moradias. Mas ele também ressaltou que a drenagem fluvial deve ser feita imediatamente. “As galerias fluviais estão inadequadas, já não suportavam a necessidade de escoamento e agora [depois das chuvas do último fim de semana] estará mais complicado”, avaliou o prefeito.
(direto do por G1-Pr)

terça-feira, 15 de março de 2011

ANTONINA EM BRANCO E PRETO

Tenho por hábito caminhar à noite pelas ruas de Antonina. Caminho nessa hora porque é mais fácil ouvir os clamores da minha infância e reconstruir minhas imagens de quando brincava nas ruas e jogava bola nos muitos campinhos que existiam outrora. A solidão e o silêncio me ajudam a sentir o que fui e posso garantir que soube ser feliz. Não sei o que sou agora, depois desse abismo das águas, depois da morte de Pedro, depois de ver a tristeza nos olhos daquela gente. Só sei que meu olhar é triste, que minha voz é fraca e que meu coração é ermo, pois a lição ensinada é prova inexorável que viver é acumular perdas.
Mas eu não aprendo, porque não vejo as coisas da forma que elas são. A maneira pela qual olho a cidade de Antonina é sustentada na relação do que vejo e vi, do que vivo e vivi, pois a concepção que me chega como imagem são imanentes, isto é, são condicionadas ao meu estado de alma, longe da razão. Voltado sobre mim e sobre o que sinto, cada canto, cada rua, é um transportar permeada de lembranças, de recordação de como eu era, de como vivi, em choque com o que eu vivo e vejo. Chego a imaginar que tudo não passa de uma ilusão, uma aparência e que toda realidade esconde-se atrás do tangível e que se chama passado.
Embora considere que tudo isso é cego e sem razão, incondicionalmente sou levado a ser assim, sem poder explicar-me, pois nem tudo é razão, consciência, e sim apenas um sentir. Muito menos quero uma investigação objetiva sobre os valores da vida e nem filosoficamente argüir o quanto possa estar certo ou errado, interpretar psiquicamente o que Freud explica em minha estranheza e obscuridade. Só quero neste momento as minhas convulsões, ser apenas triste e cantar minhas perdas. Quero acumular mais essas e no meu livre abandono, no desarrimo dos sonhos ser agora o dono de mim.
Deixo meu orgulho de lado e os traços do limite da razão para na frente do espelho contar minhas lágrimas e me beijar. Mas nessa dor há conforto, pois embora nas sombras, sinto Antonina aquecida, pois sei que no meio do nada o tempo fará seus milagres.
Depois da dor acomodada verei a nova Antonina, a geografia mudada e uma nova arquitetura. Quem sabe verei um povo mais triste, como eu, ou quem sabe a autoestima mudada. Embora saiba que tudo precisa ser continuado, reconstituído, quero, no contraponto exato de tudo que me assola, ficar aqui, com a minha sórdida frigidez de dor inútil e esperar, que em breve, possa andar sob o silêncio e o mercúrio, olhando a cidade, como se ela fosse um retrato antigo pregado na parede.

A QUESTÃO LEGAL DOS RECURSOS FEDERAIS


Cerca de 10 mil pessoas perderam suas casas e mais de 18 mil foram prejudicadas em decorrência das fortes chuvas em Paranaguá, Morretes e Antonina. Pontes e estradas que dão acesso aos três municípios foram destruídas e muitas lavouras foram perdidas. Além dos danos materiais e a tristeza das duas mortes, pessoas que vivem do turismo correm o risco de perderem seus empreendimentos e consequentemente gerar um problema social devido ao grande número de desempregados.

ESTADO DE CALAMIDADE PÚBLICA

Para se decretar estado de calamidade pública, em primeiro lugar os municípios devem levantar os danos e em seguida entregar à Defesa Civil, que compilará os dados e enviará á Procuradoria-Geral do Estado. Esta, com base em fundamentos legais, elaborará documento e entregará ao governador para assinatura do decreto.
Decretado o estado de calamidade o governo federal será acionado, através do Ministério da Integração Regional, no qual está subordinada a Secretaria Nacional de Defesa Civil, que avaliará a situação para fins de envio de dotação orçamentária.

A QUESTÃO LEGAL

Para que o governo federal envie recursos é preciso que dois ou mais municípios decretem estado de calamidade pública. Pelo que levantei apenas Morretes o fez, pois Antonina, Paranaguá, Guaratuba decretaram estado de emergência. Mas como a situação é grave o decreto do governo do estado possibilitará a chegada de recursos federais – muitos a fundo perdido – para a reconstrução de pontes, recuperação de estradas e casas para os desabrigados.

segunda-feira, 14 de março de 2011

NOVAS IMAGENS DAS CHUVAS EM ANTONINA

Laranjeiras
Rua Nenem Chaminé (Morro do Bom Brinquedo)
Rua Xv de Novembro
Rua XV de Novembro
Theatro Municipal
Fotos Luzia B Gaspari

domingo, 13 de março de 2011

COMO ENVIAR AJUDA AOS DESABRIGADOS

1 - Doações de fraudas descartáveis, roupas íntimas (masc e fem.), roupas, lonas, alimentos não perecíveis, leite infantil e principalemente Água Mineral.
Local: Rede Big e Mercadorama (Curitiba e demais cidades da rede)
2 - Doações de colchões:
- Barracão da Defesa Civil (Rua Sergipe, 1712, Vila Guaíra, Curitiba).
- Fone da Defesa Civil: 199

sábado, 12 de março de 2011

AINDA SOBRE AS CHUVAS EM ANTONINA

1 - Infelizmente a fortes indícios de mais mortes em Antonina. Além do nosso querido Pedro, uma moça de 26 anos foi vítima da avalanche no Batel.
2 - Para solucionar o acesso a Antonina, por conta da queda da ponte próximo a Fergupar, foi feito um desvio no local, mas este deve ser usado em extrema necessidade devido a precariedade do acesso.
3 - A Defesa Civil fará uma reunião pela manhã para adotar novas estratégias, mas de antemão os moradores que puderem doar água mineral, leite, comida não perecível, devem fazê-lo, entrando em contado com representantes dos orgãos responsáveis pela operação.
4 - Quero aqui manifestar meu apoio e agradecimento pelo excelente trabalho que funcionários do Clube Náutico fizeram durante as fortes chuvas. Através do seu comodoro, Caetano Machado Filho, muitos moradores ilhados em suas residências foram salvos pelos barcos emprestados pelo clube, dando mostra que o povo de Antonina é solidário em todas as crises.
Parabéns ao amigo Caetaninho e sua equipe.

ALGUMAS FOTOS DAS CHUVAS EM ANTONINA

Avenida Thiago Peixoto - Batel

Avenida Uruguay (Estação Ferroviária)
Batel - Tucunduva
Estádio do 29 de Maio
fotos Roberto R. e Carlos Bandeira

PEDRO: A VÍTIMA DAS CHUVAS EM ANTONINA

Pois é, Pedro, nosso querido e eterno bilheteiro do Cine Ópera morreu em decorrência do desmoronamento do Morro da Laranjeiras. Em sua homenagem, posto abaixo uma singela homenagem que fiz a ele em 13/09/2010.

PEDRO, O BILHETEIRO DO CINE ÓPERA
por Luiz Henrique Ribeiro da Fonseca

foto de João Gabriel dos Santos (João Garça)

Morei na mesma rua do cinema, onde passei minha infância e adolescência. Por anos vi Pedro colocar e retirar cartazes da parede do Cine Ópera e à noite, na portaria, receber os clientes, ao lado da sua inseparável urna de bilhetes.
Toda semana tinha um lançamento – geralmente eram os filmes ingênuos das chanchadas da Atlântida ou do Mazzaropi - e a fila dobrava a esquina da Igreja São Benedito. Quem vinha do sítio, estacionava sua canoa, bem cedinho, no “rego” do mercado e de lá seguia, alinhado, para garantir sua entrada. Quem morava na cidade também tinha que comprar seu bilhete logo cedo, caso contrário só assistiria ao filme na seção do dia seguinte.
Às vezes passava em frente ao cinema, saindo do Brasílio Machado, e me deparava com o anúncio de um filme desejado. Como, quase sempre, não tinha dinheiro para a entrada, juntáva-me, à noitinha, com os meus amigos para iniciarmos o "namoro" com o nosso querido bilheteiro... Depois de muitas súplicas, ele nos deixava entrar, sorrateiros, para que o gerente não nos visse... Ainda bem que Pedro estava lá!
Na década de setenta o Cine Ópera entrou em decadência e para sobreviver recorreu às pornochanchadas, para deleite de Ceci "cagado" que, à miúde, consumia seu desejo nas primeiras fileiras do cinema. Na tela do Cine Ópera não havia mais Mazzaropi, Oscarito, Grande Otelo, Tônia Carrero, entre outros, e sim atores mais jovens, de pouco talento, mas de bunda e seios a mostra, para os quais a gente não podia olhar... Mas ainda bem que Pedro estava lá!
Meu interesse, algumas vezes, não era assistir aos filmes e sim aprontar com meus amigos algumas inocentes barbaridades contra os policiais “pé-de-galinha”, Ceci “cagado” e outro que levava o apelido de “Dejango”, por andar com a cartucheira na altura do joelho. Muitas vezes éramos pegos em nossos pequenos delitos e levados à gerência para algum corretivo, depois proibidos de entrar no cinema, mas isso não durava mais que dois dias... Porque Pedro sempre estava lá!
Hoje já não existe o Cine Ópera, pois voltou a ser o velho Theatro Municipal. Quando passo em frente ou entro para assistir algum espetáculo me vem à mente sua figura de corpo galgas e de sorriso brando. Ás vezes o encontro na portaria e minha saudade me obriga parar e relembrar os tempos do bom e velho Cine Ópera. À medida que disparo minhas convulsões e arrancos, percebo os seus milagres, como se as emoções sentidas naquele momento não passassem de um engano do tempo. Quando vou embora, carregado pelas tantas lembranças, sempre olho para trás e, antes de dobrar a esquina, digo, baixinho, só para eu ouvir: "ainda bem que Pedro estava lá"!

ÚLTIMAS DE ANTONINA

Faz sol e calor em Antonina e aparentemente não tem sinal de novas chuvas. A avalanche que desmoronou aproximadamente dez casas no morro da laranjeira e algumas no bairro da Penha (atrás do Colégio Moysés Lupion) está sendo limpa pela Defesa Civil e voluntários. Também houve avalanches e inundação em muitas casas do Jardim Maria Luiza, mas sem muitos problemas para os moradores, apenas perdas materiais. Não há como chegar ou sair de Antonina, no momento, pois do Km 4 desmoronou, ilhando toda a população. Outra dificuldade é a comunicação via telefone fixo e celular.
O fato mais triste foi o falecimento de Pedro (bilheteiro do então Cine Ópera) que morreu soterrado pela avalanche da Laranjeira.
Com a morte de Pedro, morre em mim um pouco da minha infância e adolescência.

CHUVAS CAUSAM UMA MORTE EM ANTONINA

AS CHUVAS EM ANTONINA


Distante de Antonina, acompanho com aflição as consequências das fortes chuvas. Meus pais que moram em Antonina há mais de setenta anos me confidenciaram que nunca viram nada igual. Talvez seja o maior desastre ambiental de nossa história, oriundo de fatores que somatizaram com o encharcamento do solo, da maré alta e do lixo nos bueiros. O maior problema é no Morro da Laranjeiras, onde dezenas de pessoas estão desabrigadas. Mas não vou aqui me tornar engenheiro de obra pronta e muito menos encontrar soluções preventivas para se evitar um novo desastre e sim, pedir aos amigos que frequentam o Jekiti para entrarem em contato com a Defesa Civil e ajudar com alimentos os desabrigados e o que for mais necessário, inclusive fazendo do nosso querido espaço um lugar de concentração de donativos.
O povo de Antonina vai mostrar sua solidariedade.
(imagem do Jardim Maria Luiza)

O JEKITI NOS ANOS 60 - foto do amigo Eduardo Nascimento

O JEKITI NOS ANOS 60 - foto do amigo Eduardo Nascimento