"Monocrômica, anacrônica, atraente, arcaica Antonina, não amo-te ao meio, amo-te à maneira inteira."
Edson Negromonte.



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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

FELIZ ANO NOVO

Feliz Ano Novo aos pais e mães impedidos do gesto humano do abraço,
Que sentem no quarto o frio do mormaço.
Que blasfemam a dor do cérebro à boca.
Que olham pro céu... Essa distância tão louca

Feliz Ano Novo aos pais e mães que não sabem onde deixar os filhos
Que não sabem onde deixar a dor
Que esperam na fila dos remédios
O Senhor é o meu pastor

Feliz Ano Novo aos pais e mães que vivem o bastante da sobrevivência
Da dor arrumada,
Da pura experiência.

Feliz Ano Novo aos pais e mães que perderam seus laços
Que aprenderam a vencer a distância
Que aprenderam a superar o cansaço

Feliz Ano Novo aos pais e mães das famílias suicidas
Das filhas que não são sérias
Dos filhos viciados.
Que estão na rua da miséria.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A FUNÇÃO DA ARTE

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago, colocou-o no carro e desceram a Serra da Graciosa, com destino a Antonina. O mar, que vivia atrás dos pequenos morros, tinha a água calma e rasa, repleta de sardinhas, botos e manjubinhas.
Quando alcançaram, enfim, a Ponta da Pita, o mar se apresentou aos olhos do menino. E, ao ver aquela imensidão, Diego ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
- Me ajude a olhar!

Baseado no conto de Eduardo Galeano, O Livro dos Abraços.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

UM POEMA PARA A TURMA DO LITRO

O BARCO ÉBRIO
Arthur Rimbaud

E desde então no Poema do Mar mergulhei,
Cheio de astros, latescentes, devorando
Os verdes céus, onde às vezes se vê,
Lívido e feliz, um sonhador boiando.

Onde tingindo de repente o infinito, delírios
E ritmos lentos sob o dia em esplendor
Mais fortes que o álcool, mais vastos que nossas liras,
Fermentam as sardas amargas do amor!

Sei dos céus rasgando-se em raios, e das trombas,
Das ressacas e da noite e das correntes,
Da Alba exaltada igual a um bando de pombas,
E o que o homem acreditou ver viram meus olhos videntes!

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

POESIA, MINHA FILHA


Por Edson Negromonte

poesia, minha filha, é a resposta que darias
à embalagem esquecida no beco da gralha,
ao cavalo sem dentes na beira da estrada,
à barata de nome gregor samsa no teu quarto
poesia, minha filha, é a resposta que darias
ao pássaro cego da canção popular,
às pegadas deixadas na lama amarela,
à pedra que eu te trouxe de presente
poesia, minha filha, é a resposta que darias
à goteira sobre a lareira acesa,
ao último biscoito na lata de biscoitos,
ao postal que te mandei do vale do pavão
poesia, minha filha, é a resposta que darias
aos filhos bastardos de jean-jacques rousseau,
ao mofo nas paredes brancas de uma casa quase branca,
ao velho italiano sentado no banco das praças
poesia, minha filha, é a resposta que darias
àquela estrela anã na galáxia distante,
ao rimbaud traficante de armas,
ao rio marimbondo
poesia, minha filha, é a resposta que darias
à porta entreaberta,
à lâmpada queimada,
à casa em nantucket
poesia, minha filha, é a resposta que darias

terça-feira, 24 de agosto de 2010

CHUVA DE VERÃO EM ANTONINA

Por José Maurício Gomes de Faria

Aquele cheiro de chuva
Realmente era penetrante
Lembranças afloravam
Imagens mesclando o real
Confundindo o presente
Iludindo a mente
Germinando a semente
De um momento não presente
Onde a ilusão afoga o coração
Passando como a chuva
Restando apenas o cheiro e o frescor
Que com seu orvalho
Nutre e dá mais vida
À flor.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O BECO DOS CATAVENTOS

Por Luiz Henrique Ribeiro da Fonseca

Aos meus amigos João Garça e Maneco Araponga

O campinho corroído subalterno à força d’água,
Os trilhos atritados pelo vagonete e sua carga,
A floresta do seo Juca onde a goiaba era furtada,
Assim era o "beco do mijo", de Floripa e a filharada.

Tinha Titica, tinha Moro, bem como o saudoso Tico
Tinha Ninhá, tinha Niquinho, juntos, um tiricotico.
Tinha chouriço e saci, hein, caveirinha e cabrito,
Tinha Zoa, tinha Gibe, tinha também o rico-trico.

Tinha dona Azize e minha avó Chiquitinha,
Tinha Luiza, Rosinha, também Adélia e Candinha,
Tinha de tarde na rua a conversa de tricô,
Tinha aquela fresquinha para espantar o calor.

Tinha Maneco Araponga, tinha também João Garça,
E eu que nasci Luiz, virei cachorro de raça.
Tinha o "caga-telha" e tinha o Ede Bueiro,
Tinha polícia-ladrão e a Lua sobre o outeiro.

Daqueles dias tão leves só nos restam as lembranças
Época em que o beco emergia sob uma luz tão mansa.
Hoje quando a vida nos pune e tudo na gente destoa,
Voamos até o passado, pois quem é livre, livre voa.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O NICROMANTE

por Edson Negromonte

cara a cara com o marítimo rocinante, remiro-me. Ora o mar é ocre, o ritmo monótono é ornato no cemitério interior. Antonina, eternamente momentânea. Na cama macia, antônima ao tormento, a amante amara contrai a cona e ri. Narcoticamente, recito à cítara e rio. Amortecimento, trapo roto é manto ao tétrico crime. O crânio, oco, retornará na maré e ecoará, na câmara arcana, o amor eterno. Nem no Antero inteiro, na camoniana, em Marino, Caeiro, Marinetti, encontrarei comércio. Nem na mão de Monet, no cinema, na cinira, nem no teorema, nem no teatro nô... A memória, caótica trará à tona o crânio e atônito encontrarei, na areia, a cimitarra. Miramarina Antonina, a coar o cancro mnemônico. O metrônomo no átrio é iminente a noite. Creio no crânio, a arca, mito e romance, o ícone em mármore. Camorra e mentira, retiniana Antonina. Errata, carma, carne iniciática, nomeio-te matéria. Macera a mirra, corrimento.
Cometi o crime: amei-te, amei o mar, o nácar, o oceano.
Toma, na areia, a arma tinta; corta-me. A mônada, imanente. No entreato,
retira-te. Irmana-me ao cimento.
Cão maior! Coroa! Carneiro! Octante! Câncer! Órion! Raptem-me! Naco a naco, raptem-me.
Anciã, rica em ócio, canaã-anã, trapaceira, irmã, onírica Antonina, a artrite
torna-te torta.
Ao oriente, a tormenta.
Ancora, cetácea, ancora!
Nem rota, nem timoneiro, nem carta, temo a cética e cretina Antonina.
No mirante, a mãe totêmica.
Âncora! Ática. América. Circe. Trácia. Criméia. Cananéia. Tera. Marte. Ciméria.
Terra, terra.
Atraca, Caronte, na terra acre e íntima, a coríntia Antonina.
No meretrício, intimo-te, rameira: ama-me. Catarro e amônia.
O retirante, errático, retorna a remo à mítica Antonina.
Reitera o crime.
Torre, minarete, mar ártico, antártico, titã, conto morar (ironia), na tetânica Antonina.
Não, ai, mãe, corta-me, então, a córnea, corta-me ao meio, torna-me areia marmórea, minério, átomo, matemática. Morto, cremem a mim, enterrem-me no camotim. Em amém, a monotonia teima em corroer a romã.
Rareia o carmim.
Cinéreo canoeiro...
Monocrômica, anacrônica, atraente, arcaica Antonina, não amei-te ao meio, amei-te à maneira inteira; tem-me em conta, atira-me ao trinta e cinco.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

TROVINHAS PARA OLINDA E MARIQUINHA


Autor: Ivo Fonseca

I

Mariquinha de Nhô Bó
Sempre desatou o nó
De seu neto Eduardinho
Que só fez forrobodó

II

Mariquinha se orgulhava
Do neto que ela criou
Deu pra ele a formação
E também o seu amor

III

Dona Olinda e Mariquinha
Sempre estavam na janela
Minha mãe na rua XV
Mariquinha na rua dela

IV

Conheci seu pai Porfírio
Sua avó uma portuguesa
Conheci a sua tia
Que tinha pose de princesa.

V

As pessoas que passavam
Sempre falavam com elas
Às vezes até se encostavam
Do lado das janelas delas

VI

Na rua do Ermelino
De sobrenome Leão
Via sempre Mariquinha
De chinelo na mão

VII

Esse chinelo servia
Para corrigir o seu neto
Que era muito levado
Mas ela lhe dava afeto

VIII

Hoje Olinda e Mariquinha
Estão em outra morada
Em uma janela nova
Sendo as duas amparadas

IX

Ao encerrar aqui meus versos
Sinto o peso da idade
Vivi com Olinda e Mariquinha
E hoje me resta a saudade.

(meu muito obrigado a Eduardo Nascimento pela arte da foto)

O JEKITI NOS ANOS 60 - foto do amigo Eduardo Nascimento

O JEKITI NOS ANOS 60 - foto do amigo Eduardo Nascimento