"Monocrômica, anacrônica, atraente, arcaica Antonina, não amo-te ao meio, amo-te à maneira inteira."
Edson Negromonte.



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domingo, 22 de janeiro de 2012

QUANDO DEBUTEI NO BECO DO MIJO


Corri para casa da minha avó Chiquita, ansioso e alegre para brincar meu primeiro carnaval de verdade. Meus amigos e primos, em frente ao ‘campo dos arapongas’, cantavam e batucavam nas latinhas de azeite antigas marchinhas de carnaval. O estandarte, feito de um lençol branco puído, sustentado por um cabo de vassoura, estampava o nome do bloco em batom vermelho, cujo “dono” era Erasminho, fundador e integrante mais velho.
Enquanto desesperava minha mãe e avó sobre o vestido que iria usar, minha tia corria para sua penteadeira para pegar algum par de brincos. Meu avô Antoninho ficava no seu pequeno armazém, impávido, fumando e lendo "O Antoninense". Eu tentava controlar toda a ansiedade dividindo-me entre o som da batucada na rua e minha fantasia, temendo que o bloco saísse sem mim. Depois de alguns minutos lentos, saí, sem constrangimento, usando um vestido de chita florido, lenço na cabeça, brincos de argola e um colar que imitava pérola. Assim que me juntei ao bloco, para minha surpresa, Erasminho me entregou o estandarte. No exato momento em que eu o empunhei, senti-me honrado, e garbosamente me postei na frente do bloco, como se fosse uma baliza de fanfarra.
Enfim o Beco do Mijo saiu sob o Sol quente da manhã de segunda-feira de carnaval de 1967. Éramos oito surreais saltimbancos serelepes, palhaços risíveis, trôpegos zambaios, peregrinos da alegria que cirandavam em desatino pela rua do beco. Debruçados na janela das casas os moradores assistiam ao desfile, como se vissem passar a onírica “nau dos loucos” repleta de insanas criaturas que íam à busca dos seus destinos.
Viramos à esquerda, na Rua Engenheiro Rebouças, onde dona Adélia nos esperava na janela da sua casa com uma refrescante jarra de limonada. O bloco parou com a batucada e todos correram para saciar a sede e a gula. Maneco “araponga” dividia cotovelas e empurrões com Erasminho; João ‘garça’, Gibe, Paulo Putrich e João Alberto, aproveitavam a indecisão dos dois para ganharem vantagem, enquanto eu, enobrecido com o estandarte nas mãos, olhava estéril para aqueles “miseráveis”. Dona Adélia, com o olhar horrorizado, tentava botar alguma ordem, mas os gulosos e psicóticos integrantes não respeitavam seus apelos.
Em menos de um minuto a jarra ficou vazia e os integrantes do bloco, entre arrotos guturais e flatulências impertinentes, catavam seus “instrumentos”, enquanto eu, perplexo e risível, continuava com o estandarte nas mãos, deduzindo que aquela honraria de Erasminho não passava de uma estratégia espúria da sua gulodice.
Entramos na loja do seu Jorgito – esquina da Rua XV de Novembro com Engenheiro Rebouças - e ali ganhamos nosso primeiro vintém. Era uma nota de 01 (um) cruzeiro e João “garça”, como sobrinho do comerciante, colocou o dinheiro na bolsinha do estandarte. Atravessamos a rua e entramos no comércio do Jorge “pé-de-metro” Cecyn e lá fomos expulsos sem levar nenhum trocado. Aos gritos de pão-duro, seguimos pela Rua XV de Novembro até chegar à loja do seu Salomão. Ele, para não negar a tradição, nos deu algumas balas, mas mesmo assim não deixamos de homenageá-lo com o nosso bordão: - Pão-duro! Pão-duro!
Pouco metros depois, paramos em frente à papelaria do Kupechinski e lá hesitamos entrar. O dono do estabelecimento era um velho galgaz, austero como um oficial nazista e sua pele era desbotada pelo vitiligo. Depois de uma breve discussão, resolvemos não enfrentar a fera, mas homenageamos o velho Kupechisnki com um apelido apropriado: cobra d’água.
Passamos em frente à casa dos meus avós. Dona Olinda estava na janela, sorrindo branda e seu “carvalhino” na porta, com as mãos para trás, com olhar interrogativo. Ambos olhavam para o neto, sem restrições, e assim que passamos alguém do bloco resolveu cumprimentar meu avô com um “bom dia, seu caralhinho!
No comércio do Madureira ganhamos alguns trocados. Viramos a Heitor Soares Gomes e entramos no armazém do Soda. Enquanto alguns batucavam e pediam dinheiro, outros assaltavam o saco de amendoim que ficava próximo à porta. Ganhamos alguns trocados e saímos agradecendo, gritando: - Seu Soda é foda - já com o itinerário traçado: a loja de dona Branca. Lá entramos e seu marido Rodolfo, nos deu uma moeda, embora não fosse o desejado, agradecemos a gentileza e seguimos em frente.
Pegamos a Carlos Gomes, com destino a Rua Esteiro. Assim que chegamos lembrei-me da recomendação da minha para nunca pisar na rua, onde viviam e trabalhavam as meretrizes da cidade. Entramos na barbearia do Glostora, onde obtivemos sucesso. Mais adiante uma mulher da então profissão da “vida fácil”, sorriu para nós e perguntou se alguém queria tirar o cabacinho logo cedo. Sem que alguém tivesse tempo de reagir, ela entrou, puxada pelos braços por um possível marinheiro que aportara no Barão de Teffé.
Nossa alegre peregrinação pelas ruas e comércios de Antonina foi lucrativa. Ao meio-dia chegamos no beco e entramos na casa de Paulo Putriche para dividirmos nosso lucro. Da sacolinha tiramos as notas mais graúdas e do bolso do vestido João Alberto tirou as moedas.
A divisão da grana não seguia a lógica da ciência exata, tanto que as primeiras manifestações de repúdio começaram contra João Alberto, que relutava entregar algumas moedas que ainda estavam no bolso do seu vestido. Intimidado, fiquei sentado na roda, vendo-os contar o dinheiro, já imaginando que seria passado para trás. Não me importava com o dinheiro, pois sabia que minha bisnaga, máscara de pirata e serpentinas, meu avô “carvalhinho” me garantiria mais tarde.
Enfim a contagem e a divisão do dinheiro terminaram. Como previ saí da casa de Paulo com algumas moedas, as quais eu sabia que não foram frutos de uma divisão honesta. Mas Maneco e João “garça” também saíram com a mesma quantia que eu, reclamando dos mais velhos que ficaram com a gorda parte da arrecadação. Sem lamentações e arrependimentos, segui pelo beco, feliz e realizado, contando as minhas moedinhas.
Agora, ao acabar este texto, percebo que aquele dia, em que debutei no Beco do Mijo, fez-me entender e respeitar aqueles, cuja orientação sexual é diferente da minha, que são alvos da intolerância, do ódio e preconceito de muitas pessoas que são tão iguais a mim.

sábado, 14 de janeiro de 2012

OUTONO EM ANTONINA

Seguia na direção de Antonina. Na Estrada da Graciosa o ônibus se arrastava pelas curvas estreitas e sinuosas, que por muitas vezes atraiçoaram, ribanceira abaixo, seus peregrinos mais apressados. Acompanhava a paisagem com meu olhar sereno, regulado, recheado de ternura e humildade, de suavidade e dor, entregue ás ilusões e desvarios, como se ainda fosse aquela criança que brincava nas ruas de Antonina.
O ônibus seguia lento e eu, agora sem devaneios, segurava toda a ansiedade do azul monótono de Antonina. E depois de várias curvas lentas, logo lá embaixo, ela, aos poucos, aparecia adormecida, calma, patética, coberta por uma branda névoa azulada, como se fosse uma fotografia antiga. Naquele momento ela era uma canção antiga, um brinquedo esperançado para o dia de Natal, mas depois de algumas curvas, como num súbito arranco, temi pelo nosso encontro, quando nos encontrássemos em suas ruas estreitas e disformes.
Por fim o ônibus desceu a Serra. Através da janela eu acompanhava a vegetação rasteira, os muitos pinheiros, os arroios de águas límpidas e tranquilas que irrigavam os sítios e chácaras que se estendiam pela beira da estrada do São João. Sob uma ponte metálica, um riacho corria tranquilo e algumas meninas, na margem, cirandavam sob a sombra das árvores. Um menino, sorrateiro, atirou-se nas águas e, como um boto festeiro, tentou seduzi-las com arrojadas piruetas. Elas gargalharam, como se apreciassem o esmero do menino, mas era cedo, a noite não chegara, e todas voltaram aos motes de onde pararam.
O rigor monolítico daquela paisagem que eu tanto conhecia obrigava-me a mergulhar na vaga sensação de que tudo que se estendia à minha frente tinha uma representação - e isso era um consolo -, pois para mim cada olhar tem um sentir, como cada aventura tem seu tédio, e que tudo eram dimensões e não passavam de um estado de alma. E em busca desse paliativo eu seguia ansioso na direção de Antonina ou da fuga de mim mesmo, de meus próprios fantasmas, que caminhavam ao meu lado pelos rígidos caminhos da ilusão e do real.
O ônibus estava bem próximo do centro. Passara o bairro do Batel e se aproximava da velha Estação Ferroviária. Através da janela eu olhava as casas antigas e tantas outras sem beirais, como se quisssem esquecer seus fantasmas. Mesmo assim tudo era um sentir, uma rajada de lembranças. Abri a janela e logo senti o veranico de Antonina. O Sol perdera a plenitude e algumas nuvens impropriavam a tarde. O ônibus, enfim, chegou defronte à antiga Estação Ferroviária. O prédio, construído no final dos anos dez, em estilo inglês, ainda mantinha sua imponência, a torre do relógio, o sino, as placas de bronze homenageando seus construtores e políticos. Uma lembrança que me oprimia era a de Rosane, minha primeira namorada, acenando para mim da janela do vagão, num adeus definitivo. Lembrei das matinês nas tardes de domingo, da hesitação do toque das mãos e lamentei os beijos inocentes que não foram roubados em frente ao portão. Levei as mãos ao rosto e dei um breve sorriso. Não pensei em um grande fracasso, nem  em arrependimentos, apenas lembrei de Rosane e onde ela estaria naquele momento em que uma aspereza na garganta preludiava o choro. A ficção embalada o sonho e o passado vinha acompanhado de saudade e dor; uma dor útil e necessária que me abastecida a vida. As imagens se sucediam e eu as provava uma a uma, como se sentisse o sabor adocicado dos lábios de Rosane que eu nunca experimentei.
Duas quadras depois eu avistei o Grupo Escolar Brasílio Machado. Agora eu era aquele menino de avental branco que corria pelo pátio de areia, sob as castanheiras e depois atravessava o caminho de cimento que cortava a relva plana. Meu olhar subiu os degraus de mármore da escada larga. No corredor eu cruzava pelas professoras de guarda-pó branco levando em suas austeridades a solidão das causas nobres.
Segui meu destino e logo me deparei com o antigo Estádio do 29 de Maio. Não havia mais indícios da imponente arquibancada, onde meu avô Carvalhinho costumava se sentar comigo nos finais de semana para assistir aos jogos do “glorioso”. Mas eu estava ali, dentro do campo, sob a meta, olhando a bola que vinha na minha direção como uma águia ameaçadora.
Tudo o que via trazia-me a vida de volta, mas a imprecisão dos anos repousava em mim um sentimento de ternura ameaçadora, Tudo era tão íntimo e notório que eu não intervinha naquele entusiasmo que desalinhava meu presente e reconstituía meu passado. Mas, de súbito e contrafeito, as coisas à minha volta, me desmontavam de toda a lisura e eu quis por um instante deixar de amá-las, esquecê-las até, para que eu pudesse não mais sentir essa dor pretérita.
Cheguei à Praça Coronel Macedo. Fazia um clima confortável e a praça, escrava do silêncio e do mercúrio, adormecia em volta do coreto sem retreta. Meus olhos não renunciavam a nada. Através das janelas das casas vizinhas, eu perseguia as silhuetas dos corpos, as vozes que se confundiam com as das televisões ligadas, o frescor da tarde que revigorava os ambientes e mais além, os quintais que adormeceriam no breu da noite. A tudo eu dava um sentindo, uma regularidade, como se toda a matéria fosse a expressão de meu estado de alma. Era um não-ver desencadeado por uma torrente de esperança que emergia de meu mundo sensível, como se eu fosse um pinheiro eriçado sobre a terra pantanosa. Tudo teve um sentido quando me deparei com a praça vazia... Ali encontrei o meu duplo amor e dei forma, feitio, ao meu dom atemporal para o viver e o sofrer.
As folhas caíam das árvores, leves e ociosas, e quando chegavam ao chão constatavam que o Sol alcançara o equinócio de março. Naquele instante não havia mais nada dentro de mim, restando-me apenas contemplar o ocaso do entardecer... Era Outono em Antonina...

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Ruídos... sons da minha infância

por Laura Veiga de Camargo

Um, apito? está chegando um navio. Corro às escadas do sobrado. Eu e Arlete olhamos pela janela lateral. Ficamos lá, curiosidade boba, olhando, querendo adivinhar aquele ponto escuro lá longe, na entrada da baía. Será que é do Matarazzo? O Lídia? Todos os navios do Matarazzo tinham nomes femininos. Das irmãs do Conde.
Quantas namoradas ansiosas esperam… esposas e filhos também, os marinheiros casavam e aqui deixavam suas famílias. Criavam raízes e muitos se tornaram nossos.
Também podia ser o navio de passageiros do Lage. Henrique Lage tinha uma companhia de navegação, a Costeira, os navios sempre com nomes começados com Ita: Itaquera, Itapuca, etc., o Ita foi muito importante pra Antonina. O agente era o senhor José Thomaz do Nascimento, pessoa simpática e muito querida por todos os antoninenses, “o vovô Juca” dos meus filhos. Um contador de histórias de primeira, figura maravilhosa.
Quando chegavam na cidade era uma festa! Certa vez um desses navios trouxe Procópio Ferreira e sua companhia de teatro. Fez uma apresentação no nosso lindo Teatro Municipal, imaginem, foi fantástico. Aconteceram outras vezes óperas famosas, pessoas especiais por aqui passaram.
Madrugada… o som do martelo… senhor Alberto Colecci. Era carpinteiro e emérito marceneiro, que fazia também caixões para nossos mortos. Era um italiano bonito, barrigudo, olhos azuis, todo mundo gostava dele. Quando ouvíamos o martelo bater de madrugada, já nos vinha um pensamento: “quem será que morreu?”.
Outro apito, bem diferente do primeiro. Este é mais perto, forte, contínuo. O trem chegando. A Maria Fumaça. Jovens que esperam seus amores, familiares chegam de longe e as pessoas aglomeradas, ansiosas, esperam na pequena e bonita estação a chegada do trem.
O apito da partida é mais rápido. As vezes triste. Vai levando gente querida… e lá sobe o trem o Morro do Machadinho!
Feito engraçado: às vezes, por falta de “pressão” volta o comboio até a estação e as pessoas que tinham ficado ali, paradas, tristes, se alegram pois, oportunidade maravilhosa de ver mais uma vez o rosto querido, e as vezes até dava pra tocar na mão ou um beijo rápido. Na segunda vez, arranca e vai mesmo. Adeus.
Madrugada, aquele barulho de uma máquina. Não se dorme? Ou dorme-se? Acostuma-se com o barulho e até se acha agradável. É o João Leite editando o Jornal de Antonina. Amanhece, segunda-feira e ele tem que entregar o jornalzinho. Escreve, edita, compõe os tipos, revisa e imprime. Devia haver uma estátua para o João Leite em Antonina. Merecia. Homem de Valor. Do jornal inteligente, político e bem humorado. Lembro de umas muito boas. “Garanta um elogio póstumo assinando o Jornal de Antonina“, ou então: “Aniversariou a menina mais bponita de Antonina, Lurdinha (era sua filha) e Laura veio cumprimentá-la e trouxe um sabonete de presente“(?!!). Contava que seu jornal foi o primeiro do Brasil a ser punido pela “lei da imprensa”. Motivo; tinha um cachorro de estimaçao (raça vira-lata) que o dia todo dormia tranquilamente em frente a tipografia, mas, se aparecia na esquina do Grupo Escolar Brasílico Machado alguém com quem ele não simpatizasse acompanhava a vítima até o posto Texaco, latindo sem parar. Certa vez levou umas bengaladas que o deixaram bem machucado. Seu dono não teve dúvidas, foi ao juiz de direito dar queixa. Não deram a “mínima”! Na próxima edição o jornalzinho trouxe na primeira página, como manchete o acontecimento com o título: “Justiça P…” Foi apreendido o jornal. Naquela semana não ganhou nada, coitado do João Leite.
Bem… Belelém… bate o sino da igreja de São Benedito… não dá pra esquecer. Amanhecendo… a procissão do “Encontro”. A imagem de Nossa Senhora encontra a imagem de Cristo ressuscitado. Dona Sandra Mussi, como Verônica. Toda de preto, véu cobrindo o rosto, canta uma música belíssima com uma voz cheia de encanto. Um belo teatro! Emoção sem tamanho! Momento de magia! Daí segue a procissão até a igreja Matriz para a missa. Bate o sino… chama o povo para a reza.
Lá está a imagem bonita de Nossa Senhora do Pilar, representando a luz que iluminará sempre Antonina, esperando de seu povo bondade, trabalho, solidariedade é fé cristã. Amor, amor e amor. Amém.
do blog Olhar Comum

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

OUTONO NAS ARAUCÁRIAS

DONA ARMINDA

por Luiz Henrique R. da Fonseca

Na varanda da casa antiga, dona Arminda fazia crochê, sentada em sua cadeira de embalo, esperando pelos filhos e netos que nunca a visitavam. Diante dela estava o jardim, com seus lírios, crisântemos e hortênsias, e uma pequena alameda de seixos rolados que se estendia até um muro baixo de pedra que contornava todo o casario. Um carteiro parou em frente ao portão e colocou uma correspondência na caixa-postal. Ela levantou-se e tentou gritar, mas o mensageiro partiu em seguida. Lentamente ela desceu os três degraus da escada e caminhou, olhando, investigativa, para a caixa do correio. Submissa e gelada, ela apanhou o envelope, rasgou-o e retornou à varanda, forçando o olhar, tentando ler o nome do remetente. Desassistida pela visão fraca, ela subiu a escada, procurando os óculos nos bolsos do vestido marrom de lã pesada, encontrando-os, em seguida, sobre uma mesinha ao lado da cadeira de vime. Com certa ansiedade, colocou os óculos e começou a ler... A cada trecho ela se inquietava, sem tirar os olhos da carta, tentando decifrar o que havia nas entrelinhas. Depois que terminou, vertiginosa, apoiou-se no parapeito da sacada e olhou o céu, como numa oração. Os olhos giraram, num pensamento, e voltou a sentar-se, apoiando a cabeça branca no encosto alto da cadeira, pensativa, emblemática, apertando a carta em seu ventre.
Por alguns minutos ela ficou ali, imóvel, sentindo os rumores do passado, idealizando o que fazer com aquela notícia. De repente os olhos cresceram, num desassossego, levantou-se e entrou em casa. Em menos de um minuto as janelas começaram a se abrir, enfunando as cortinas de seda; e ela, de espanador nas mãos, começou a limpar os móveis, arejar a casa, como se todo aquele esforço fosse para receber alguém que há muitos anos não via.
Havia no olhar de dona Arminda uma lucidez, uma energia, mas às vezes ficavam mornos, olhando para além do nada, como que somando, subtraindo, multiplicando diversas vezes o produto daquela notícia. Depois de tanto esforço, dividiu-se entre o rancor e uma alegria fingida, entre o amor e o tormento e, por fim, sentiu seu tempo e seu espaço, sorrindo, assistida, olhando para a carta que acabara de tirar do bolso do vestido.
Os dias se sucederam agônicos e ela, delicada, escolhia, com rigor algumas flores e plantas com o intuito de quebrar o ambiente lúgubre da casa. Lenta e delicada, ela caminhou pela aleia, conferindo o odor das flores, analisando as folhagens com extrema atenção. Assim que subiu os três degraus da varanda, voltou-se para trás e olhou para a esquina e suspirou, como se quisesse receber o milagre do tempo.
Os minutos escorriam e ela, em meio a sua paz homicida, em seu amor feito de dor e esperança, borrifava as folhagens. Sem demonstrar cansaço ela conferia tudo com zelo e reflexão. Debruçou-se no parapeito da varanda e com longos suspiros refrigerou os pulmões. O olhar ávido anunciava que a visita estava próxima, e ela, tentando revigorava-se com o sol nas faces, consolava-se com as coisas miúdas à sua volta. De súbito, surpreendeu-se com um devaneio, mas conteve o ímpeto, censurando-se, como se nada além daquela prosaica solidão fosse-lhe permitido.
Embora a lucidez a tivesse freado, mesmo assim, manteve-se morna e distante, arguindo a razão, dizendo para si que há muito vivera conforme a imposição de seu feitio reto e vertical. Revestida de um pouco de dúvida, ela viajava nos sonhos, concebendo que perto dali havia uma estação, e ele chegaria, depois dobraria a esquina, trazendo rosas vermelhas nas mãos. Entre recuos e avanços, ela, perfilada ainda na varanda da casa antiga, seguia com suas crônicas, cânticos e rezas, tentando aproximar-se humildemente de seus desejos, sem um segundo sequer deixar de lutar contra a inerência da solidão.
A idade e os anos parcos que havia pela frente a oprimiam, mas ela mantinha-se estável e equidistante - apenas um pouco preocupada com comentários em família. Sorrindo de algum pensamento bobo, ela meneou a cabeça, concebendo uma definição, e em seguida virou-se para a casa, avaliando as lembranças grudadas nas paredes. Dividida, sentou-se lentamente, cheia de preocupações, girando o olhar, nervosa, como se quisesse conter o choro. Imóvel e com olhar ao longe, ela vasculhava-se indefinidamente, apertando os lábios, que ora aguçavam esperançosos, ora reprimiam-se, desiludidos. A manhã lenta e casual impunha-lhe uma reforma nos sentidos, e ela, sensível e cautelosa, ainda tímida e temerosa, olhava para o fim da rua sem saber se seria vítima ou algoz daquela paixão do passado.
Tomada de pureza e dor, ela levantou-se e entrou na casa. Sobre o aparador pegou o retrato do marido e o acalantou juntou ao peito, como se dissesse a ele que não podia mais viver apenas das lembranças. Hermeticamente depositou o retrato e começou sua peregrinação pela sala, deslizando as mãos sobre os móveis antigos, perscrutando o que os fantasmas lhe diziam. Movimentando-se pela penumbra, ela formava imagens e ouvia as vozes do passado - a família reunida no almoço de domingo, os natais, os aniversários - tentando restabelecer uma nova formar de viver. Distraída, pegou-se vaidosa em frente ao espelho e, por um momento, sentiu-se insegura, frívola, com a aparência. Pensou em pitar os cabelos, comprar roupas novas e ser menos velha. Deslizou as mãos pelo rosto e, pondo-se a ideias vagas, contou todas as marcas, as rugas, lembrando-se dos momentos em que era jovem, quando amar não impunha às dúvidas.
Delicadamente e quieta, ela ajeitou as flores nos vasos, sentindo suas dúvidas, o medo de não conseguir, depois de muitos anos, domar todo sentimento, a ansiedade que residia nos olhos que fitavam a esquina. Enquanto as lembranças fragmentavam-se, o frescor higiênico da casa a tranquilizava, e ela, com olhos voadores, dividia-se entre a arrumação da sala e a ponta da plataforma da estação. Tentando conter a ansiedade, com leves incursões, fazia de conta que tudo estava como dantes, mas surpreendia-se olhando para a esquina, e depois se arrefecia, entendendo de que nada adiantaria precipitar o que o destino havia programado. De súbito, a dúvida a invadiu e ela perdeu-se nos pensamentos, temendo que ele não viesse por arrependimento ou por algum imprevisto. Dentro de uma caixinha de miudezas ela apanhou a carta e, atenta às entrelinhas, sem encontrar motivos aparentes para preocupações, sorriu, e em seguida colocou-a de volta na caixa. Segundo o que lera, realmente não havia o que temer, a vinda era inevitável e ela, mais solta, voltou a sorrir.
Com algum desamparo e infortunada pela espera, ela sentiu a manhã e olhou outra vez para a esquina. Foi à cozinha preparar seu almoço solitário. Não sentia fome, estava disposta a comer salada e um pedaço de filé de frango. Metodicamente ela cortava as verduras e arrumava-as numa travessa, borrifando um pouco de limão sobre as folhas coloridas. O frango estava mergulhando numa pequena vasilha com claras e a farinha estava num pote, dentro armário. Qualquer barulho, sensação, era motivo para ela parar com tudo e, cuidadosamente, concentrar os sentidos lá fora, até que a dúvida dissipasse. Não havia motivo para tanta ansiedade, pois a carta anunciara que ainda faltavam alguns dias para a visita chegar. Mas, para quem foi arremessada de sua vida solitária para um amor do passado, toda e qualquer sensação gerava angústia, dúvidas e repreensões, principalmente quando ela se deparava com os retratos espalhados pela casa, época em que tudo fazia sentido, quando tudo era sólido e harmônico, uma fortaleza de muros altos e intransponíveis.
Sobre a pequena mesa da cozinha ela colocou o prato com saladas e um filé de frango à milanesa. Olhou em volta, depois olhou para a cadeira vazia e sentiu a presença do marido. Atingida pelas lembranças, por um instante, ela compactuou com aquele olhar repousado em seus olhos, enquanto ele a ouvia falar sobre as coisas pequenas do dia-a-dia. Mas todas as lembranças expostas à sua frente não a oprimiam o suficiente para ansiar a chegada do emissor daquela carta. Era preciso apaziguar a escolha que fizera, era necessário revidar a hostilidade que em todos esses anos ela escondeu na alma, antes que os olhos se fechassem de vez. Mesmo sem frescor, ela continuou dividindo-se entre as lembranças, a ansiedade da espera e a trivialidade da comida. Por um momento ela permitiu-se a um fluxo mais forte em sua corrente sanguínea quando se imaginou deitada na cama, dividindo-a com aquele homem que haveria de chegar. Sorriu do pensamento bobo e tentou se desvencilhar do constrangimento. Mas tudo a imobilizava, em síncopes frenéticos, imaginando como sua pele reagiria quando ele a tocasse.
Áspera e surpresa, levantou-se e levou o prato até à pia. Jogou o resto de comida na lixeira e sem pensamentos, sentiu a manhã se esvair pela pequena janela da cozinha. Depois que tudo ficou arejado, ela se despediu dos olhos repousados do marido e seguiu para a varanda.
Na cadeira de vime ela decifrava-se, em meio às recordações e desagrados. Mas a fome era intensa, o vazio e o silêncio eram sentimentos necessários, próximos e equidistantes, como se tudo estivesse perto dos olhos, mas distante do alcance das mãos. Com os olhos perplexos em algum canto do jardim, ela pegou-se sorrindo, como se desdenhasse seus medos e culpas; em seguida desmanchou o coque que prendia os cabelos, meneou a cabeça para deixá-los mais soltos e olhou adiante. Um casal cruzava a rua, o sol lapidava a parede da casa de esquina; não havia sombras em seu mundo sensível, apenas a ansiedade por alguém que tardava a completar aquela paisagem.
Ela não acreditava como poderia esperançar tanto, olhando para o final da rua, para a esquina que dobraria o amor. O rosto continuava aflito, e, como se cobrisse toda a sua nudez, foi ao encontro de si, fechando-se para o sonho. Às vezes se descobria, acreditando na sede, na fome do amor, mas depois voltava para algum canto qualquer de seu corpo e adormecia persuadida pela razão. Mas, antes de entrar, ela, frágil e perdida, entregou-se às evidências de seus sentimentos e, sem se violentar, olhou para a esquina.
De repente o Sol cortou em diagonal a tarde e ela desligou-se de tudo, quando viu um senhor de terno marrom e chapéu na cabeça parar em frente ao portão. Ele trazia flores nas mãos e sonhos na cabeça. Bateu palmas e esperou, olhando a casa com olhos curiosos. Dona Arminda apareceu na varanda com os olhos iluminados e ele, ao vê-la, obsequioso, tirou o chapéu. Ela desceu as escadas, querendo ser veloz, e caminhou pela aleia, equilibrando-se na ansiedade. Assim que ela abriu o portão os olhares trocaram rimas de sonetos de amor e a tarde estagnou...
Cada um procurava equilibrar-se na emoção, contendo as mãos, refrigerando o pulmão para não serem violados pelas palavras inúteis. Com o chapéu na mão, ele ofertou-lhe as flores e, com um sorriso de quem colhia rosas, ela agradeceu a gentileza e o fez entrar. Ingênuos e delicados os dois caminhavam, conversando, trocando olhares indecisos, até chegarem à varanda. Ela o fez sentar e disse que voltaria logo com uma bandeja de chá.
Os segundos passavam, enquanto ele preparava seus planos ao lado dela, sem pensar em desastres, em tormentos. Assim que ela chegou, ele levantou-se, e, mais uma vez, obsequioso, ajudou-a com a bandeja de chá. Sentindo-se mais solta, ela o servia, enquanto ele, impreciso, acomodava o chapéu para poder receber a xícara de chá. Ela não se serviu, apenas sentou-se e olhou nos olhos dele, na mão trêmula que levava a xícara à boca, e por um momento o passado tornou-se frívolo e trivial, ela o havia perdoado. Sentindo o olhar ameno sobre si, ele depositou a xícara sobre a bandeja e arrefeceu-se de toda ansiedade. Amavelmente eles se olhavam e a vida não era mais oca, o mundo não os feria mais. Tudo que se estendia lá fora se precipitava sem minúcias e o tempo era impessoal, mas veloz. Entre o silêncio e as palavras, um pensamento indeciso os machucava, forçando-os a visualizarem um futuro. Então, com o ar humilde, ele encarou-a, e ela, com os olhos em órbitas, arrastava-se em risos e ensaios. Ele discorreu um assunto e ela, depois de um devaneio calculado, assentiu com a cabeça. Ele sorriu, estendendo a mão para ela, como se dissesse para caminharem juntos. Ela acatou o gesto, e as mãos nunca mais se desgrudaram naquela tarde...

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A FUNÇÃO DA ARTE

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago, colocou-o no carro e desceram a Serra da Graciosa, com destino a Antonina. O mar, que vivia atrás dos pequenos morros, tinha a água calma e rasa, repleta de sardinhas, botos e manjubinhas.
Quando alcançaram, enfim, a Ponta da Pita, o mar se apresentou aos olhos do menino. E, ao ver aquela imensidão, Diego ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
- Me ajude a olhar!

Baseado no conto de Eduardo Galeano, O Livro dos Abraços.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

AS COLHERADAS DO VELHO GERALDO CAMARGO

Numa tarde bucólica do outono de 1975, estávamos aprendendo a técnica das colheres com o velho Geraldo, pai do Geraldo Leão, em sua loja de autopeças, no prédio do Rio Apa. Seu método consistia em pegar duas colheres, prendê-las nos dedos da mão, uma sobre a outra, e, intercalando as batidas na palma da mão e nas coxas, acompanhar a música. Não havia canção que ele não acompanhasse - inclusive os rocks mais ferozes -, mas eram os sambas e o country suas especialidades. De súbito, ele largou tudo sobre o balcão e nos disse para segui-lo. Ele vira a professora Lúcia estacionar seu fusca novinho em frente à casa da dona Tite e disse que aprontaria alguma. Saímos da loja e o seguimos ansiosos, para saber qual seria a maluquice que o pai do Gê iria inventar. Paramos em frente à casa da dona Tite e o velho Geraldo, agachado em frente ao carro da professora, nos disse para ajudá-lo. Todos entenderam sua pretensão e nos tornamos cúmplices da sua idílica sacanagem. Geraldo Leão, Chico Liberato e eu pegamos no pára-lama dianteiro direito, enquanto o velho Geraldo, Edson Negromonte e Maurício “galinha” faziam força no pára-choque dianteiro do fusca, com objetivo de colocar a parte da frente sobre a calçada.
Atingido o intento, saímos correndo e ficamos a espreita na porta da loja. Não demorou muito e a professora Lúcia surgiu, acompanhada por dona Tite. As duas conversaram por alguns minutos, sem perceberem o que havia ocorrido com o fusca. Nós, na porta da loja, disfarçávamos o escárnio para que elas não desconfiassem de nada. Minutos depois, Lúcia despediu-se de dona Tite e, ao se virar, deparou-se com o inusitado.
- Meu Deus – exclamou a professora, tentando encontrar algum dano na lataria.
Dona Tite tentava acalmá-la, confortando-a de que não houvera nenhum dano material, mas a professora Lúcia, inconformada, não desistia de uma resposta para o ocorrido.
O velho Geraldo resolveu conferir de perto e nós o acompanhamos. Chegando lá, perguntamos o que sucedia e ela não sabia o que responder, apenas perguntou se tínhamos visto alguma coisa.
- Claro que não – respondemos em cima.
Em seguida surgiram algumas hipóteses:
- Acho que foi o vácuo de um enorme caminhão em alta velocidade – disse um de nós.
- Não! Foi a trepidação! - retrucou outro.
- Vai ver que dona Lúcia bebeu demais – disse Chico, sob o olhar inquisidor de dona Tite.
Depois de algumas explicações absurdas colocamos o carro na posição correta e ela, mas calma, agradeceu. Dona Tite, como nos conhecia, interrogava-nos com o olhar, querendo que um de nós desse algum indício do delito. Mas nos mantemos firmes e eretos, para não trair a confiança do bom e velho Geraldo. Assim que a professora Lúcia se foi, dona Tite, muito desconfiada, dirigiu-se até mim e, com um sorriso no canto da boca, me interpelou, mas eu não cai na sua astúcia. Para que não fôssemos pegos, resolvemos sair à francesa, contendo o riso. Passos depois, durante a travessia da rua, nós ouvimos o pai do Gê falar a cunhada sobre uma possível “barbeiragem” da professora Lúcia que, segundo ele, nada inusitado para uma mulher. Não resistimos a cara de pau do velho Geraldo e gargalhamos, dando a dona Tite o indício de prova do nosso delito.
Quase próximos à loja e sem coragem de olhar para trás, ouvimos a sentença:
- Quem não os conhece que os compre!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O TESOURO DO MORRO DA JENELINHA

Houve outrora, em Guarapirocaba, um pobre e modesto alfaiate chamado Benitodin, homem inteligente e trabalhador, que não perdia a esperança de vir a ser riquíssimo. Como e onde, no entanto, encontrar um tesouro fabuloso e tornar-se, assim, rico e poderoso?
Um dia, parou na porta de sua humilde casa, um velho mercador do Cacatu, o Pipico, que vendia uma infinidade de objetos extravagantes. Por curiosidade, Benitodin começou a examinar as bugigangas oferecidas, quando descobriu, entre elas, uma espécie de livro de muitas folhas, onde se viam caracteres estranhos e desconhecidos. Era uma preciosidade aquele livro, afirmava o mercador, e custava apenas três dinares. Era muito dinheiro para o pobre alfaiate, razão pela qual o mercador concordou em vender-lhe o livro por apenas dois dinares.
Logo que ficou sozinho, Benitodin tratou de examinar, sem demora, o bem que havia adquirido. Qual não foi sua surpresa quando conseguiu decifrar, na primeira página, a seguinte legenda: "o segredo do tesouro do Morro da Janelinha." Que tesouro seria esse?
Benitodin,recordava vagamente de já ter ouvido qualquer referência a ele, mas não se lembrava onde, nem quando. Mais adiante decifrou: "o tesouro do Morro da Janelinha, enterrado pela Mãe do Ouro, entre as montanhas do Feiticeiro, foi ali esquecido, e ali se acha ainda, até que algum homem esforçado venha encontrá-lo."
Muito interessado, o esforçado tecelão dispôs-se a decifrar todas as páginas daquele livro, para apoderar-se de tão fabuloso tesouro. Mas, as primeiras páginas eram escritas em caracteres de vários povos, o que fez com que Benitodin estudasse os hieróglifos morretenses, a língua dos jekitinenses, os dialetos dos apinajés e o idioma dos bagrinhos.
Em função disso, ao final de três anos Benitodin deixava a profissão de alfaiate e passava a ser o intérprete do rei, pois não havia na região ninguém que soubesse tantos idiomas estrangeiros e as línguas mortas guarapirocabanas . Passou a ganhar muito mais e a viver em uma confortável casa.
Continuando a ler o livro encontrou várias páginas cheias de cálculos, números e figuras. Para entender o que lia, estudou matemática com os calculistas da cidade e, em pouco tempo, tornou-se grande conhecedor das transformações aritméticas. Graças aos novos conhecimentos, calculou, desenhou e construiu uma grande ponte sobre o rio Pequeno, o que fez com que o rei o nomeasse prefeito.
Ainda por força da leitura do livro, Benitodin estudou profundamente as leis e princípios religiosos de sua cidade, sendo nomeado primeiro-ministro daquele reino, em decorrência de seu vasto conhecimento. Passou a viver em suntuoso palácio e recebia visitas dos príncipes mais ricos e poderosos do mundo, como: Dom João Gabriel I e único, do principado do Jardim Maria Luiza; Dom Antônio Eugênio, Barão da Ermelino de Leão; Conde Luís Henrique XXI, o Vigia, do Condado do Clube Literário...e outros. Graças a seu trabalho e ao seu conhecimento, o reino progrediu rapidamente, trazendo riquezas e alegria para todo seu povo. No entanto, ainda não conhecia o segredo do Moro da Janelinha, apesar de ter lido e relido todas as páginas do livro.
Certa vez, teve a oportunidade de questionar um venerando sacerdote, F. Machado, a respeito daquele mistério, que sorrindo esclareceu:
"O tesouro do Morro da Janelinha já está em seu poder, pois graças ao livro você adquiriu grande saber, que lhe proporcionou os invejáveis bens que possui. Afinal, Janelinha na língua dos índios Carijós, significa saber e Feiticeiro quer dizer trabalho."
Com estudo e trabalho pode o homem conquistar tesouros inimagináveis.
O tesouro do Morro da Janelinha é o saber, que qualquer homem esforçado pode alcançar, por meio dos bons livros, que possibilitam "tesouros encantados" àqueles que se dedicam aos estudos com amor e tenacidade.
Fonte: livro Os Melhores Contos, de Malba Tahan
( O Tesouro de Bresa )
Contextualizado por Fortunato Machado Filho

quinta-feira, 31 de março de 2011

EU e o GOLPE DE 64

Quando era criança um nome provocava arrepios em minha casa: Leonel Brizola. Passei minha infância acreditando que esse camarada era do mal, uma espécie de Inca Venuziano, um Celacanto que provocava maremoto. Minha tia Nininha passava o dia com o ouvido no rádio, querendo saber os detalhes do referido golpe. Ela amaldiçoava Brizola, dizia que Goulart era um frouxo e que Fidel era um assassino. Pois então, os militares "salvaram" o Brasil dos maus brasileiros e dos que queriam vender nosso país para Fidel. A minha família estava salva, Antonina estava livre das garras afiadas dos bandidos comunistas e eu pude enfim voltar ao campo do "flamenguinho" para jogar futebol.
A imagem daqueles anos difíceis que mais me chamou atenção foi a foto do estudante morto estampada na capa da revista O Cruzeiro. Não sei exatamente com precisão qual foi o meu sentimento, só sei que aquela imagem do menino, um pouco mais velho que eu, com a camisa branca ensangüentada e com os olhos de terror, me chocou. Não foi medo, como se eu estive assistindo a um filme de terror, foi pena, tristeza, com um pouco de revolta, tanto que por muito tempo ela me perseguiu.
Anos depois, na reitoria, no ano de 1977, participando de uma manifestação estudantil contra a prisão de alguns membros da UNE, vi a polícia do exército baixar no lago e cercar todas as saídas. A primeira impressão que tive foi o medo de virar aquele estudante morto da capa da revista. Como meu trauma não me salvaria daqueles policiais, tratei de me esconder no Centro Acadêmico Hugo Simas e lá fiquei trêmulo e acovardado. Minutos depois um policial entrou com um cassetete não mão e gritou, me encarando: "Pra fora"! Comigo saíram alguns alunos e um cara mais velho, talvez um professor. De cabeça baixa passamos por um corredor polonês, sem sermos agredidos. Ao chegar à calçada da rua XV, em frente à entrada do Teatro da Reitoria, dei de cara com um policial, cuja fisionomia não me era estranha. Ele me olhou e disse: "O que você está fazendo aqui?". Levei alguns segundos para dizer a ele que estudava no prédio e participava da reunião. Ele me olhou nos olhos, perguntou se estava tudo bem comigo e disse para eu seguir meu caminho. Durante o trajeto da Reitoria até o terminal Guadalupe, fui buscando em minha memória de onde eu conhecia... Antes de entrar no ônibus, de súbito, me lembrei dele. Seu nome era Wilson e foi policial em Antonina, mas o fato inusitado veio em seguida: quando era criança ele me ensinara a nadar, na Prainha.
Os anos seguiram e eu nunca mais vi Wilson. Só sei que ele foi morar em Paranaguá e não sei se ainda está vivo ou morto.
Segui minha trilha, comecei a trabalhar, casei e tive minha primeira filha. Em 1983, com três anos de serviço público, participei da primeira greve. Logicamente a coisa estava mais branda, Figueiredo levava seu governo com a barriga, querendo logo entregar o Brasil a um civil qualquer. A greve não deu em nada, mas muitas vieram – poucas com algum ganho, muitas tendo que pagar os dias faltosos - e hoje quando olho para meu contracheque sinto que ganhei muita experiência... hehehe!
Na campanha presidencial de 89, fui levado por um amigo ao comício do Brizola, no Centro Cívico, onde fui apresentado ao grande Taiguara. Brizola estava distante de mim, mas se tivéssemos trocado algumas palavras, com certeza diria que ele foi uma espécie de Celacanto da minha infância. Taiguara foi gentil, elegante comigo, mas logo se afastou e ficou ao lado do Brizola.
Vi e ouvi Brizola contar sua trajetória política e o sonho que ele tinha para o Brasil. Logicamente fiquei impressionado com seu vigor e me surpreendi aplaudindo aquele senhor de 70 anos que ainda sonhava, que ainda gritava sua indignação pela fraude da Rede Globo em tentar lhe roubar o Governo do Rio de Janeiro.
Não fiquei até o fim do comício, pois minha segunda filha acabara de nascer e eu tinha que dar uma força em casa. Caminhei até o estacionamento e coloquei o adesivo do Brizola no vidro de trás do meu Fiat 147, junto com o do Lula. Como era a minha primeira eleição presidencial, não sabia exatamente em quem voltar – se na esquerda nova ou na antiga – só sei que eu queria vigar aquele estudante morto na capa de O Cruzeiro.
Enfim cheguei defronte ao meu prédio. Olhei para cima e vi a silhueta da minha esposa com minha filha no colo. Deixei o carro na garagem, querendo logo chegar à minha casa e poder abraçá-las. Subi correndo, de dois em dois degraus, ansioso, porém mais leve e ao chegar ao corredor escuro do meu andar pude entender tamanha leveza. Naquele momento a imagem do estudante morto não mais me fustigava, embora quisesse vingá-lo, mas a maior revelação foi a de Brizola que, de Celacanto da minha infância, passou a ser o Nacional Kid da minha maturidade... Mas acabei votando no Lula.

terça-feira, 29 de março de 2011

NA CASA DOS MEUS AVÓS


Meus olhos perambulavam desperdiçados pelos quadros, retratos e móveis antigos arqueados. Em meio àquela solidão e consciência, eu sabia do Sol de verão que ardia lá fora, da brisa leve que soprava sobre Antonina, mas por respeito preferi não quebrar o encanto daquele exílio sombrio de onde meus avós, intimamente, emprestaram ternura ao mundo.
Embora soubesse que tudo precisaria ser continuado, reconstruído, preferi não pensar nos passos do porvir e nem preparar a minha própria reinvenção, pois tais necessidades só poderiam ser alcançadas depois que sentisse o que os objetos e lembranças teriam a me dizer.
Andei lentamente pelos cômodos da casa e agasalhei meus olhos no quarto antigo, na cama de cabeceira alta, no armário de espelho oval e no criado-mudo que ainda sustentava a minha foto. Fluía em mim algumas perspectivas de verdades provisórias: de que a dor da saudade limitava-se, naquele momento, ao que meus olhos encontravam em volta, que a minha infância perdera-se nos meandros do milagre do tempo e que a então felicidade esbarrava-se em minha maturidade.
Na cozinha a minha avó preparava, com delicadeza, a travessa de salada. O feijão e o arroz estavam sobre a mesa, junto à travessa de filés de frango à milanesa. Meu avô chegava, obsequioso, de chapéu na mão e a cumprimentava. Em seguida os dois sentavam para almoçar e, com o olhar repousado um no outro, eles conversavam sobre as coisas pequenas do dia-a-dia. Com os olhos atentos, eu os seguia e a cada palavra trocada eu negligenciava os gritos surpresos dos meus amigos no velho campinho de futebol. Como se fora triste, suspirei, irrevogável, e me encontrei na dolorosa alegria do passado.
Na sala ainda estava o velho rádio, sobre a mesa de cerejeira escura e, ao redor, duas cadeiras de vime, nas quais meus avós sentavam para ouvir a programação da Rádio Antoninense até a Hora da Ave Maria. Meu avô gostava de passar as tardes ali, lendo e acompanhando o movimento da Rua XV, enquanto minha avó, ao lado dele, tentava acomodar, em algum lugar de seu corpo, a dor da saudade de seu filho que morava além da Serra.
Enquanto as boas lembranças desabavam em minha mente, cada vez mais me certificava que toda a saudade não vinha dos odores, dos paladares da comida da minha avó e nem dos movimentos dos corpos daquela casa, e sim da forma, do feitio que meus olhos davam àqueles objetos que jamais mudaram de lugar.
Em meio àquela paz fugidia, tentei regular a dor em meu peito, e, depois de alguns devaneios, inconcluso, pude perceber que naquela harmonia inquietante o que me pertencia não era o presente e nem o porvir e sim a ilusão do passado, onde residia todo o meu desejo.
Tudo à minha volta me ofertava uma robusta sensação de que toda a tentativa de querer ser feliz era um desejar inútil. Olhei os objetos mergulhados na penumbra e, antes de ir embora, ergui o olhar e senti, em meio ao bafio lúgubre que me rodeava, que minha infância e meus avós morreram só um pouco.

terça-feira, 15 de março de 2011

ANTONINA EM BRANCO E PRETO

Tenho por hábito caminhar à noite pelas ruas de Antonina. Caminho nessa hora porque é mais fácil ouvir os clamores da minha infância e reconstruir minhas imagens de quando brincava nas ruas e jogava bola nos muitos campinhos que existiam outrora. A solidão e o silêncio me ajudam a sentir o que fui e posso garantir que soube ser feliz. Não sei o que sou agora, depois desse abismo das águas, depois da morte de Pedro, depois de ver a tristeza nos olhos daquela gente. Só sei que meu olhar é triste, que minha voz é fraca e que meu coração é ermo, pois a lição ensinada é prova inexorável que viver é acumular perdas.
Mas eu não aprendo, porque não vejo as coisas da forma que elas são. A maneira pela qual olho a cidade de Antonina é sustentada na relação do que vejo e vi, do que vivo e vivi, pois a concepção que me chega como imagem são imanentes, isto é, são condicionadas ao meu estado de alma, longe da razão. Voltado sobre mim e sobre o que sinto, cada canto, cada rua, é um transportar permeada de lembranças, de recordação de como eu era, de como vivi, em choque com o que eu vivo e vejo. Chego a imaginar que tudo não passa de uma ilusão, uma aparência e que toda realidade esconde-se atrás do tangível e que se chama passado.
Embora considere que tudo isso é cego e sem razão, incondicionalmente sou levado a ser assim, sem poder explicar-me, pois nem tudo é razão, consciência, e sim apenas um sentir. Muito menos quero uma investigação objetiva sobre os valores da vida e nem filosoficamente argüir o quanto possa estar certo ou errado, interpretar psiquicamente o que Freud explica em minha estranheza e obscuridade. Só quero neste momento as minhas convulsões, ser apenas triste e cantar minhas perdas. Quero acumular mais essas e no meu livre abandono, no desarrimo dos sonhos ser agora o dono de mim.
Deixo meu orgulho de lado e os traços do limite da razão para na frente do espelho contar minhas lágrimas e me beijar. Mas nessa dor há conforto, pois embora nas sombras, sinto Antonina aquecida, pois sei que no meio do nada o tempo fará seus milagres.
Depois da dor acomodada verei a nova Antonina, a geografia mudada e uma nova arquitetura. Quem sabe verei um povo mais triste, como eu, ou quem sabe a autoestima mudada. Embora saiba que tudo precisa ser continuado, reconstituído, quero, no contraponto exato de tudo que me assola, ficar aqui, com a minha sórdida frigidez de dor inútil e esperar, que em breve, possa andar sob o silêncio e o mercúrio, olhando a cidade, como se ela fosse um retrato antigo pregado na parede.

sábado, 22 de janeiro de 2011

DONA NILZA E SEU FILHO JOÃOZINHO

por Edson Negromonte

Dona Nilza, a mãe de João, era tão ou mais incomum que o filho. Manquitola, professora e diretora do Colégio Estadual Valle Porto, tinha dificuldade para trocar as marchas do fusquinha azul, a perna dura a impossibilitava de calcar o pedal da embreagem. Por causa disso, atravessava a cidade em primeira. Na volta para casa, a grande diversão dos alunos do noturno era pegar carona com a professora. No cruzamento da Avenida Matarazzo com a Rua Mestre Adriano, que dá acesso ao centro, Dona Nilza parava o carro e mandava que um deles, quase sempre o do banco da frente, na condição de co-piloto (e como o lugar era disputado!), descesse para ver se ela podia continuar o trajeto. Andava tão devagar que, às vezes, só por farra, saíam dois, três meninos e, enquanto o primeiro embarcava, os outros fingiam correr ao lado, fingindo emparelhar com o carro. De vez em quando, um engraçadinho, na corrida, ultrapassava o fusquinha para embarcar de volta, mais adiante. Tudo era uma grande brincadeira para os rapazes que, independente da idade, ela tratava por meninos.
Numa das suas inesquecíveis aulas de História (como ela amava a disciplina!), Dona Nilza estava a discorrer com propriedade sobre a Revolução Francesa, íntima de Robespierre, Danton, Jean-Paul Marat, como se do grande acontecimento tivesse participado de fato, quando foi interrompida por Zico, seu afilhado, bagunceiro de marca maior, dizendo qualquer besteira sobre a lição da aula anterior, só para atrapalhar a explanação da mestra. Irritada com o corte súbito em seu devaneio, Dona Nilza responde ríspida:
– Isso eu dei na semana passada!
– Se deu, eu não comi - retruca Zico, do fundão.
– O quê, menino?! – diz ela, surpresa, fazendo-se de surda.
Noutra aula, estava Dona Nilza empolgada com a peste negra que assolou a Europa na Idade Média, descrevendo os sintomas da doença, pulgas, ratos, mongóis, sangramentos, mortandade, inchaços, bubos,.. Foi aí, então, que eu, leitor de aventuras, levantei o dedo e a interrompi; eu tinha acabado de ler um romance juvenil ambientado na época da peste bubônica.
- Eu li um livro sobre isso, aparecem uns caroços pelo corpo, na cabeça, parecido com a boba que dá na cabeça do pinto...
- Deixe de besteira, menino!
Enquanto eu tentava consertar ao mal-entendido, a classe vinha abaixo.
- É verdade, Dona Nilza, o pinto fica mole, todo mole, a cabeça pra lá e pra cá, e cai.
- Já disse para você ficar quieto!
- Mas, Dona Nilza, a senhora já viu como o pinto fica?
- Cala a boca, eu já disse!
Ainda tentei explicar que eu estava me referindo ao filho da galinha, que eu tinha conhecido a doença no sítio do meu avô, mas não teve jeito: mandou-me para fora da sala, sem conseguir disfarçar o sorriso nos lábios finos.
Certa vez, eu e Chico Liberato, companheiro de bagunça, fomos chamados à diretoria por termos ofendido o inspetor escolar. Na presença do inspetor, Dona Nilza perguntou por que tínhamos desacatado o inspetor, pronta para nos passar um sabão ou, pior, uma suspensão.
– Mas, Dona Nilza, a gente o chamou pelo nome, Seu Filhinho – disse Chico, fazendo uma voz fina e aflautada de mulherzinha ao pronunciar o nome do inspetor.
Não que Seu Filhinho fosse maricas, mas para nós, adolescentes descobrindo o mundo, prontos para gozar de tudo, soava muito estranho que um homem velho como ele fosse chamado de Filhinho.
– Saiam daqui, seus desordeiros! Da próxima vez, serão suspensos! – despediu-nos, sem poder disfarçar o riso.
Joãozinho, assim a mãe o chamava, assim ele era conhecido na cidade, apesar de ser grande e forte feito um touro, de peito estufado, briguento. De voz tonitroante, sabia ser delicado e afável, uma moça, quando necessário. Riso escancarado, passadas largas, os pés abertos, dez para as duas, espalha merda.
Uma vez, durante a sua festa de aniversário de 20 anos, Joãozinho tirou da gaveta um revólver e passou a aterrorizar os convidados, simulando uma roleta-russa. Apontava para a cabeça dos convidados e, click, ria às bandeiras despregadas. Encostava o cano na própria cabeça e click. Click, click!
– Deixa de ser louco! - diziam.
– Para com isso, Joãozinho! Para já! – grita dona Nilza, da cozinha.
– Mãezinha, a arma tá vazia – responde Joãozinho, divertindo-se.
– Olha, que o diabo atenta!
– Tá vazia, sem bala, mãezinha! Olha só, quer ver?
E Joãozinho, apontando a arma para a própria mão, aperta o gatilho. Click! Click, click!
Sabe-se lá, sem como nem porquê, o revólver dispara, e uma bala atravessa a palma da mão do aniversariante, e passando rente à cabeça dos convidados vai se alojar na parede. Segundos de silêncio, de descrença... Ao perceber o vermelho do sangue, do próprio sangue, Joãozinho começa a gritar desesperado, segurando a mão, choramingando. Por isso, e somente por esse pequeno incidente, Joãozinho, o filho da Dona Nilza Machado, a professora de História e diretora do Colégio Estadual Valle Porto, ficou conhecido para sempre como João Bang.
Para fechar a crônica, devo relatar também o enterro de Dona Nilza, embora isso me doa muito, assim como deve ter doído a todos os seus conterrâneos, assim como deve ter doído muito mais ao seu filho que, apesar da dor, teve que dar, ao telefone, a triste notícia ao irmão que morava no norte do Paraná:
– Joel, vem rápido pra Antonina, que a velha fodeu-se.
Ao sair o féretro, uma verdadeira multidão o acompanhava. No meio do caminho, uma chuva fininha foi engrossando aos poucos. Então, os condutores do caixão acharam melhor apertar o passo. Indignado, João Bang pulou na frente do carro funerário, de arma em punho.
– Devagar aí, miudinho, que isso não é enterro de vagabundo!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

QUERO MONTAR UMA BANDA DE ROCK


          Fazia trinta anos que eu não falava com Edson. Encontrei-o no Jekiti e entre um café e outro falamos de nossa vida atual, sem sequer lamber o passado. Ele me disse que se tornara artista plástico e escritor e morava em Judiaí, onde tinha um pequeno sebo de livros e discos. Havia se separado há alguns anos e chegou a pensar em voltar para Antonina para se recuperar, mas depois, pesando os prós e os contras, anteviu-se enchendo a cara e apodrecendo nas esquinas, e desistiu. Refugiou-se por uns tempos na casa dos pais, em Resende, onde se reergueu e descobriu a região de Visconde de Mauá, na Serra da Mantiqueira: lugar paradisíaco, na divisa dos estados do Rio Janeiro e Minas Gerais, onde se entregou, por um ano, ao far niente. Quando retornou a Jundiaí, dedicou-se à pintura e literatura: escreveu dois livros infantis e realizou algumas exposições em galerias de São Paulo.
Conversamos aproximadamente por meia hora e depois que Edson partiu, minha memória foi extremamente generosa comigo. Em convulsões, arranquei de mim todo o passado, e o segui bem de perto, enquanto uma balada antiga soava em meus ouvidos.
Não sei o que Edson queria resgatar em Antonina, só sei que ele era ansioso para descobrir o mundo e se envolver com ele. Seus quadros eram quixotescos, surreais, intensos, como se ele encharcasse a tela com o próprio sangue. Eu vivia na casa dele, trancado no quarto ouvindo Led Zeppelin, Stones e as bandas de rock progressivo. Trocávamos discos e íamos à busca de novas bandas, lendo a versão brasileira da revista Rolling Stone. Ele me apresentou ao rock, pois até então me limitava a jogar futebol, como goleiro do infanto-juvenil do 29 de Maio e colecionar figurinhas de times de futebol.
Um dia, na casa do Geraldo eu o conheci e, enquanto o seguia com o olhar, vinha-me aos ouvidos os primeiros acordes de Black Dog, do Led Zeppelin, que ele me ensinou a ouvir e sentir.
Em seguida lembrei-me do Ge, Chico e Maurício. Há anos não falava com eles – exceto Maurício que volta e meia encontrava em Antonina – e pouco me lembrava do som que ouvíamos no quarto da casa da avó do Ge. Ele era quem eu mais conhecia, pois crescemos juntos e jogávamos bola no Campo do Flaminguinho. Ge era como Edson: tinha talento para as artes, desenhava bem, era culto e gostava de ir à busca de novidades musicais. Foi ele quem mais nos mostrou o caminho do rock, através dos discos do Led Zeppelin, Black Sabbath, David Bowie e Rolling Stones. Conheci Chico e Maurício nas mesmas condições de Edson: ouvindo som na casa do Ge. Chico era uma espécie de mau elemento e minha mãe não gostava dele por conta de seu passado recente de “bandidagem”. Mas eu não me importava, pois Chico tinha a incumbência de nos tirar do tédio por conta da sonolência capelista. Tinha um excelente relacionamento com algumas figuras grotescas de Antonina, e sempre inventava alguma maluquice para fazermos, como por exemplo, lançar morteiros pelas ruas de Antonina. Chegou a andar com Nininho Inxó - um especialista em subterfúgios alucinógenos que provocavam caganeira -, e com algumas figuras da Turma do Litro - grupo que vivia no mercado esperando os botecos abrirem para receberam a primeira dádiva do dia. Tinha um gosto particular pelas coisas mundanas. Vivia na zona, mendigando uma puta velha e um copo de cerveja. Muitas vezes ele conseguia de graça alguma cama, graças à sua simpatia e bom papo.
Maurício era mais na dele e vivia com a avó, no Hotel Miralba, onde volta e meia sodomizávamos as "namoradas" ao som de Pink Floyd e Yes: bandas preferidas do Maurício. Tinha um velho acordeom, do qual tirava alguns acordes experimentais que serviram como base para algumas composições próprias. Foi ele que nos incentivou a montar uma banda de rock e a compor algumas canções. Aceitamos de imediato e os primeiros ensaios foram no quarto do Ge, onde havia uma radiola velha que servia como amplificador para a guitarra. Maurício levou seu velho acordeom, Ge amplificou sua guitarra, enquanto eu, com duas baquetas nas mãos, me preparava para fazer da poltrona do quarto do Ge a minha bateria.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

NA CASA DOS MEUS AVÓS


Por Luiz Henrique R. Fonseca
Meus olhos perambulavam desperdiçados pelos quadros, retratos e móveis antigos arqueados. Em meio àquela solidão e consciência, eu sabia do Sol de verão que ardia lá fora, da brisa leve que soprava sobre Antonina, mas por respeito preferi não quebrar o encanto daquele exílio sombrio de onde meus avós, intimamente, emprestaram ternura ao mundo.
Embora soubesse que tudo precisaria ser continuado, reconstruído, preferi não pensar nos passos do porvir e nem preparar a minha própria reinvenção, pois tais necessidades só poderiam ser alcançadas depois que sentisse o que os objetos e lembranças teriam a me dizer.
Andei lentamente pelos cômodos da casa e agasalhei meus olhos no quarto antigo, na cama de cabeceira alta, no armário de espelho oval e no criado-mudo que ainda mantinha a minha foto. Fluía em mim algumas perspectivas de verdades provisórias: de que a dor da saudade limitava-se, naquele momento, ao que meus olhos encontravam em volta, que a minha infância perdera-se nos meandros do milagre do tempo e que a então felicidade esbarrava-se na dureza da vida.
Na cozinha vi minha avó preparar, com delicadeza, a travessa de salada, colocar o feijão e o arroz sobre a mesa, junto com os filés de frango à milanesa. Meu avô chegava, obsequioso, de chapéu na mão e a cumprimentava. Em seguida os dois sentavam para almoçar e, com o olhar repousado um no outro, conversavam sobre as coisas pequenas do dia-a-dia.
Na sala ainda estava o velho rádio, sobre a mesa de cerejeira escura e, ao redor, duas cadeiras de vime, nas quais meus avós sentavam para ouvir a programação da Rádio Antoninense até a Hora da Ave Maria. Meu avô gostava de passar as tardes ali, lendo e acompanhando o movimento da Rua XV, enquanto minha avó, ao lado dele, tentava acomodar, em algum lugar de seu corpo, a dor da saudade de seu filho que morava além da Serra.
Enquanto as boas lembranças desabavam em minha mente, cada vez mais me certificava que toda a saudade não vinha dos odores, dos paladares da comida da minha avó e nem dos movimentos dos corpos daquela casa, e sim da forma, do feitio que meus olhos davam àqueles objetos que jamais mudaram de lugar.
Em meio àquela paz fugidia, tentei regular a dor em meu peito, e, depois de alguns devaneios, inconcluso, pude perceber que naquela harmonia inquietante o que me pertencia não era o presente e nem o porvir e sim a ilusão do passado, onde residia todo o meu desejo.
Tudo à minha volta me ofertava uma robusta sensação de que toda a tentativa de querer ser feliz era um desejar inútil. Olhei os objetos mergulhados na penumbra e, antes de ir embora, ergui o olhar e senti, em meio ao bafio lúgubre que me rodeava, que minha infância e meus avós morreram só um pouco.

domingo, 1 de agosto de 2010

VAGABUNDOS ORIGINAIS


por Edson Negromonte

Todas as cidades possuem os seus vagabundos, sendo que somente as pequenas os têm como originais, são membros da grande família que vem a ser a população de uma pequena cidade, onde todos os habitantes têm um indefinido grau de parentesco. Em Antonina, na década de 70, havia Barreano, Genésio, Caninana, Dalila Bu e Bardivo (ou Vardivo, como também era conhecido), que, com a simples presença, transformavam uma tarde insípida em mais um dia radiante ou, bem mais tarde, motivo de escritura.
O franzino Barreano, sempre em andrajos, perambulava pelas ruas da cidade, para lá e para cá, sem destino aparente, com o que lhe restava do pé direito sempre envolvido por um pedaço de papelão, amarrado com barbantes encardidos, à guisa de sapato. Ou melhor, o último resquício de uma sandália romana, de causar inveja ao artista plástico e designer Hundertwasser. Se lhe gritavam o nome, Barreano enfiava o dedo na boca, provocando, ao retirá-lo rapidamente, um estampido característico. Nunca se soube de onde ele tinha vindo; sabia-se somente que em Antonina morreria, como certamente ocorreu. Genésio, um pândego de marca maior, era capaz de peidar, sem perder o ritmo, nem a afinação, a primeira frase completa do Hino Nacional. O gran finale do pequeno show era quando um dos meninos mais velhos lhe pedia que mostrasse o ovo. Sem cerimônia, Genésio botava o saco rendido para fora e exibia algo que mais se parecia com um peludo abacate cor de carne, fruto talvez de uma caxumba mal curada. Caninana era uma mulambenta que dormia no coreto da praça, com a qual muitos garotos tiveram sua primeira experiência sexual. Já Dalila era uma desvairada que saía correndo atrás de quem lhe gritasse “Bu!”, com uma saraivada de cabeludos palavrões, desferindo varadas a torto e a direito.
Bardivo é um caso à parte. Todos sabiam que ele era irmão de Albari, o guardião da praça. Encostado nas paredes do velho casario do centro, o simpático Bardivo costumava abordar os passantes:
- Patrão, um dinheirinho para tomar uma pinguinha.
Não havia como recusar uns trocados àquele rosto sorridente e sem dentes. (Como diz a canção dos Titãs: Jesus não tem dentes no país dos banguelas). Herói que se preza, não dispensa um fiel escudeiro; Bardivo tinha Risadinha, cujo sugestivo nome vem de os pequenos dentes apontarem para fora, num eterno sorriso, aparentemente satisfeito com a vida que levava. Os transeuntes que saudavam Bardivo, faziam questão de cumprimentar também o cachorrinho Risadinha.
Albari, além de ser funcionário municipal, com a sua humilde casa de madeira, à beira do trilho, quase defronte à estação ferroviária, era também o tocador de tuba da furiosa, apresentando-se no coreto todos os finais de semana e festividades. Portanto, não se poderia chamá-lo, mesmo carinhosamente, de vagabundo. Mas como, numa brincadeira, uma coisa chama outra, não poderia aqui me furtar de contar as peripécias do irmão de Bardivo: corria a inusitada história de que Albari tinha um pau enorme, descomunal, cuja cabeça lhe chegava ao joelho. A fama de Albari, aliás, do pau do negro Albari ultrapassava já as fronteiras municipais; no banheiro masculino da antiga rodoviária de Curitiba, lia-se, em chamativa tinta vermelha, a inscrição QUANDO FOR A ANTONINA, NÃO DEIXE DE CONHECER O ALBARI. Desavisado, o mijante pensaria se tratar de algum ponto turístico da pequena cidade, algo como um pico. Na verdade, tratava-se de uma pica.
Nas reuniões familiares, quando alguma coisa extraordinária acontecia ou era contada, uma amiga mais afoita invariavelmente exclamava, para gargalhada geral: é o pau do Albari! Tamanha era a fama do nosso ídolo que, numa tarde de domingo, alguns jogadores do Atlético desceram à cidade para um encontro com o Albari, no intuito de pagar uma boa grana para fotografar a avantajada jeba. Entre irritado e lisonjeado (um indisfarçável sorriso dançava-lhe nos lábios carnudos), o homem recusou-se peremptoriamente a exibir a beronga. Os jogadores, irredutíveis, foram dobrando a proposta até serem postos porta a fora. Nós, meros mortais, não conseguíamos entender por que Albari recusara aquela grana toda, digna de uma peladona da Playboy, bufunfa que lhe daria uma vida melhor (naquele tempo, a poupança rendia bons dividendos; ficávamos, na esquina da papelaria do Maurício, na farmácia do seu Carlos, no bar do Homero, calculando os lucros mensais, e juros sobre juros), além da fama nacional, quiçá internacional, planetária até, podendo ir parar no Guiness Book. Certeza absoluta, sempre soubemos disso, a cajarana de Albari era bem maior que a do russo Rasputin, o monge lúbrico. A atitude do semideus local era incompreensível, sendo que ele mesmo alimentava o mito ao movimentar, com a mão no bolso da calça de brim azul, a ponta do birro. Sim, na altura do joelho. Ou, ao sorrir, como se não estivesse nem aí, apertando um pouco os olhos de azeitona, para a ovação da molecada durante o esforço excessivo de soprar a tuba, coisa que, além de inchar as bochechas, movimentava a cabeça do cacete. Sim, na altura do joelho esquerdo. Meninos, eu vi!
Muitos anos depois, em conversa com o Dr. Gaross, o médico mais antigo da cidade, em meio a umas generosas doses de uísque, para minha decepção, já adulto, fiquei sabendo toda a verdade. Como a realidade é cruel, deitando por terra as fantasias mais caras da adolescência. A afamada estrovenga do Albari era do tamanho normal. Depois de tudo, uns despeitados ainda tiveram a ousadia de insinuar que, na verdade, o pinto do Albari era mesmo uma piroquinha de nada. Acontece que o tocador de tuba tinha a bexiga frouxa, a qual ficava vazando constantemente, pingando na cueca e, consequentemente, molhando a calça, tal e qual uma torneira velha que precisasse trocar a bucha. Valia-se ele então de uma mangueira, fechada numa das pontas, presa na cabeça do pênis, esvaziada de hora em hora. Era o artifício encontrado por Albari para levar uma vida normal, depois de vários tratamentos infrutíferos e simpatias mais ainda. Desculpem-me os amigos antoninenses, mas foi-se pelos ares mais uma lenda capelista.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

CONTOS ANTONINENSES


Outono em Antonina
Por Luiz Henrique Ribeiro da Fonseca

Seguia na direção de Antonina. No meio da Estrada da Graciosa o ônibus se arrastava pelas curvas estreitas e sinuosas, que por muitas vezes atraiçoaram, ribanceira abaixo, seus peregrinos mais apressados. Acompanhava a paisagem com meu olhar sereno, regulado, recheado de ternura e humildade, de suavidade e dor, entregue pelas tantas ilusões, pelos desvarios de querer voltar a sentir aquela vulgar condição humana que exclamava de meu espírito quando ainda era criança nas ruas de Antonina.
O ônibus seguia lento e eu, sem devaneios, segurava toda a ansiedade do azul monótono de Antonina. E depois de várias curvas lentas, logo lá embaixo, Antonina, aos poucos, aparecia adormecida, calma, patética, coberta por uma pequena névoa azulada, como se fosse uma fotografia antiga. Naquele momento ela era uma canção antiga, de rimas doloridas recheando um soneto de amor; um brinquedo esperançado para o dia de Natal; o paraíso e purgatório de minha tão distante infância, a última fronteira de minha felicidade.
Por fim o ônibus desceu a Serra. Através da janela eu acompanhava a vegetação rasteira, os muitos pinheiros, os arroios de águas límpidas e tranquilas que irrigavam os sítios e chácaras que se estendiam pela beira da estrada do São João. Sob uma ponte metálica, um riacho corria tranquilo e algumas meninas, na margem, cirandavam sob a sombra das árvores. Um menino, sorrateiro, atirou-se nas águas e, como um boto festeiro, tentou seduzi-las com arrojadas piruetas. Elas gargalharam, como se apreciassem o esmero do menino, mas era cedo, a noite não chegara, e todas voltaram aos motes de onde pararam.
O rigor monolítico daquela paisagem que eu tanto conhecia obrigava-me a mergulhar na vaga sensação de que tudo que se estendia à minha frente tinha uma representação, e isso era um consolo, pois para mim cada olhar tinha um sentir, como cada aventura tinha seu tédio, e que tudo eram dimensões, que tudo aquilo não passava de um estado de alma. E em busca desse paliativo eu seguia ansioso na direção de Antonina ou da fuga de mim mesmo, de meus próprios fantasmas, que caminhavam ao meu lado pelos rígidos caminhos da ilusão e do real.
O ônibus estava bem próximo do centro. Através da janela eu olhava as casas antigas, a rua de paralelepípedos - tudo era um sentir, uma rajada de lembranças. Abri a janela e logo senti o veranico em Antonina. O Sol perdera a plenitude e algumas nuvens impropriavam a tarde. O ônibus virou uma esquina, pegando outra rua, e me deparei com a antiga Ferroviária. O prédio, construído no final dos anos dez, em estilo inglês, ainda mantinha sua imponência, a torre do relógio, o sino, as placas de bronze homenageando seus construtores e políticos. Uma lembrança que me oprimia era a de Rosane, minha primeira namorada, acenando para mim da janela do vagão, num adeus definitivo. Lembrei das matinês nas tardes de domingo, da hesitação do toque das mãos e lamentei os beijos inocentes que não aconteceram em frente ao portão. Levei as mãos ao rosto e sorri, sem pensar em um grande fracasso, sem arrependimentos, pensando apenas em Rosane, em como ela estaria naquele instante em que uma aspereza na garganta preludiava o choro. A ficção era embalada pelo sonho, o passado era acompanhado de saudade e dor; uma dor útil e necessária abastecida de vida. As imagens se sucediam e eu as provava uma a uma, como se sentisse o sabor adocicado dos lábios de Rosane que eu nunca experimentei.
Duas quadras depois avistei o Grupo Escolar Brasílio Machado. Agora eu era aquele menino de avental branco correndo pelo pátio de areia, sob as castanheiras, atravessando o caminho de cimento que cortava a relva plana e subindo os degraus de mármore da escada larga. No corredor eu cruzava pelas professoras de guarda-pó branco levando em suas asteridades. a solidão das causas nobres. Segui meu destino e logo me deparei com o antigo Estádio do 29 de Maio. Não havia mais indícios da imponente arquibancada, mas ali estava eu sob a meta vendo a bola vindo na minha direção como uma águia ameaçadora.
Tudo o que via trazia-me a vida de volta, a imprecisão dos anos, o repouso de um sentimento de ternura ameaçadora, e tudo era tão íntimo e notório que eu não intervinha naquele entusiasmo que desalinhava meu presente e reconstituía meu passado. Mas, de súbito e contrafeito, as coisas à minha volta, me desmontavam de toda a lisura e quis por um instante deixar de amá-las, esquecê-las até.
Cheguei à Praça Coronel Macedo. Fazia um clima confortável e a praça, escrava do silêncio e do mercúrio, adormecia em volta do coreto sem retreta, dos bancos ermos de amor. Meus olhos não renunciavam a nada e, através das janelas das casas vizinhas, eu perseguia as silhuetas dos corpos, as vozes que se confundiam com as das televisões ligadas, o frescor da tarde que revigorava os ambientes e mais além, os quintais que adormeceriam no breu da noite. A tudo eu dava um sentindo, uma regularidade, como se toda a matéria fosse a expressão de meu estado de alma. Era um não-ver desencadeado por uma torrente de esperança que emergia de meu mundo sensível, como se eu fosse um pinheiro eriçado sobre a terra pantanosa. Tudo teve um sentido quando me deparei com a praça vazia... Ali encontrei o meu duplo amor e dei forma, feitio, ao meu dom atemporal para o viver e o sofrer.
As folhas caíam das árvores, leves e ociosas, e quando chegavam ao chão constatavam que o Sol alcançara o equinócio de março. Naquele instante não havia mais nada dentro de mim, restando-me apenas contemplar o ocaso do entardecer... Era Outono em Antonina...

O JEKITI NOS ANOS 60 - foto do amigo Eduardo Nascimento

O JEKITI NOS ANOS 60 - foto do amigo Eduardo Nascimento