"Monocrômica, anacrônica, atraente, arcaica Antonina, não amo-te ao meio, amo-te à maneira inteira."
Edson Negromonte.
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segunda-feira, 2 de abril de 2012
FELIZ ANIVERSÁRIO, LUIZ HENRIQUE!
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sexta-feira, 23 de março de 2012
FELIZ ANIVERSÁRIO, SONIA
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quarta-feira, 21 de março de 2012
FELIZ ANIVERSÁRIO, MINHA FILHA
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segunda-feira, 5 de março de 2012
O JEKITI ESTÁ MAIS TRISTE
Nosso amigo Jorge (primeiro da direita) vai fazer muita falta no Jekiti.
Os dias na rua XV também serão insossos, vazios, como uma noite chuvosa de inverno. Jorge não estará mais na porta da sua loja, carregando no rosto aquele olhar resignado quando eu pedia um bom desconto na mercadoria comprada. Hoje só me resta perdir um desconto à dor para meu conforto.
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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
FELIZ ANIVERSÁRIO, MEU AMIGO
Meu amigo Paulo Cequinel completa 60 primaveras e nada mais apropriado que homenageá-lo com um belo poema de Oscar Wilde.
“Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
(...) Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero o meu avesso.(...) Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.(...) Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem,mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos
Quero-os metade infância e outra metade velhice.
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto: e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo, loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que “normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril."
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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
NOSSAS HOMENAGENS AOS 90 ANOS DE BRIZOLA
EU E O GOLPE DE 64
Quando era criança um nome provocava arrepios em minha casa: Leonel Brizola. Passei minha infância acreditando que esse camarada era do mal, uma espécie de Inca Venuziano, um Celacanto que provocava maremoto. Minha tia Nininha passava o dia com o ouvido no rádio, querendo saber os detalhes do referido golpe. Ela amaldiçoava Brizola, dizia que Goulart era um frouxo e que Fidel era um assassino. Pois então, os militares "salvaram" o Brasil dos maus brasileiros e dos que queriam vender nosso país para Fidel. A minha família estava salva, Antonina estava livre das garras afiadas dos bandidos comunistas e eu pude enfim voltar ao campo do "flamenguinho" para jogar futebol.
A imagem daqueles anos difíceis que mais me chamou atenção foi a foto do estudante morto estampada na capa da revista O Cruzeiro. Não sei exatamente com precisão qual foi o meu sentimento, só sei que aquela imagem do menino, um pouco mais velho que eu, com a camisa branca ensangüentada e com os olhos de terror, me chocou. Não foi medo, como se eu estive assistindo ao seriado "Pesadelo", foi pena, tristeza, com um pouco de revolta, tanto que por muito tempo ela me perseguiu.
Anos depois, na Reitoria da UFPR, no ano de 1977, participando de uma manifestação estudantil contra a prisão de alguns membros da UNE, vi a polícia do exército baixar no lago e cercar todas as saídas. A primeira impressão que tive foi o medo de virar aquele estudante morto da capa da revista. Como meu trauma não me salvaria daqueles policiais, tratei de me esconder no Centro Acadêmico Hugo Simas e lá fiquei trêmulo e acovardado. Minutos depois um policial entrou com um cassetete não mão e gritou, me encarando: "Pra fora"! Comigo saíram alguns alunos e um cara mais velho, talvez um professor. De cabeça baixa passamos por um corredor polonês, sem sermos agredidos. Ao chegar à calçada da rua XV, em frente à entrada do Teatro da Reitoria, dei de cara com um policial, cuja fisionomia não me era estranha. Ele me olhou e disse: "O que você está fazendo aqui?". Levei alguns segundos para dizer a ele que estudava no prédio e participava da reunião. Ele me olhou nos olhos, perguntou se estava tudo bem comigo e disse para eu seguir meu caminho. Durante o trajeto da Reitoria até o terminal Guadalupe, fui buscando em minha memória de onde eu conhecia... Antes de entrar no ônibus, de súbito, me lembrei dele. Seu nome era Wilson e foi policial em Antonina, mas o fato inusitado veio em seguida: quando era criança ele me ensinara a nadar, na Prainha.
Os anos seguiram e eu nunca mais vi Wilson. Só sei que ele foi morar em Paranaguá e não sei se ainda está vivo ou morto.
Segui minha trilha, comecei a trabalhar, casei e tive minha primeira filha. Em 1983, com três anos de serviço público, participei da primeira greve. Logicamente a coisa estava mais branda, Figueiredo levava seu governo com a barriga, querendo logo entregar o Brasil a um civil qualquer. A greve não deu em nada, mas muitas vieram – poucas com algum ganho, muitas tendo que pagar os dias faltosos - e hoje quando olho para meu contracheque sinto que ganhei muita experiência... hehehe!
Na campanha presidencial de 89, fui levado por um amigo ao comício do Brizola, no Centro Cívico, onde fui apresentado ao grande Taiguara. Brizola estava distante de mim, mas se tivéssemos trocado algumas palavras, com certeza diria que ele foi uma espécie de Celacanto da minha infância. Taiguara foi gentil, elegante comigo, mas logo se afastou e ficou ao lado do Brizola.
Vi e ouvi Brizola contar sua trajetória política e o sonho que ele tinha para o Brasil. Logicamente fiquei impressionado com seu vigor e me surpreendi aplaudindo aquele senhor de 70 anos que ainda sonhava, que ainda gritava sua indignação pela fraude da Rede Globo em tentar lhe roubar o Governo do Rio de Janeiro.
Não fiquei até o fim do comício, pois minha segunda filha acabara de nascer e eu tinha que dar uma força em casa. Caminhei até o estacionamento e coloquei o adesivo do Brizola no vidro de trás do meu Fiat 147, junto com o do Lula. Como era a minha primeira eleição presidencial, não sabia exatamente em quem voltar – se na esquerda nova ou na antiga – só sei que eu queria vigar aquele estudante morto na capa de O Cruzeiro.
Enfim cheguei defronte ao meu prédio. Olhei para cima e vi a silhueta da minha esposa com minha filha no colo. Deixei o carro na garagem, querendo logo chegar à minha casa e poder abraçá-las. Subi correndo, de dois em dois degraus, ansioso, porém mais leve. Ao chegar ao corredor escuro do meu andar, ainda ofegante, uma sensação de leveza e paz me arrebatou. Naquele momento a imagem do estudante morto não mais me fustigava, embora quisesse vingá-lo, mas a maior revelação foi a de Brizola que, de Celacanto da minha infância, passou a ser o Nacional Kid da minha maturidade... Mas acabei votando no Lula.
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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
O blues fica ainda mais triste sem Etta James
Morreu hoje a excepcional cantora americana Etta James, decorrente das complicações causadas pela leucemia. Etta James surgiu, com sua voz poderosa, em meados dos anos 50, quando foi contrata pela Chess Record, onde gravou seu primeiro sucesso: At Last. Sua carreira foi interrompida pelo uso excessivo de alcool e drogas, mas se recuperou e retornou, no final dos anos sessenta, ainda melhor.
No filme Cadilac Record, que conta a história da gravadora Chess Record, responsável pelos lançamentos de algumas estrelas do blues e do rock, como Muddy Watters, Chuck Berry, Little Milton, Howllin Wolf, entre outros, ela aparece na pele da excelente Byonce.
No vídeo ela canta Ball and Chain, também imortalizada na voz de Janis Joplin.
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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
30 ANOS SEM ELIS REGINA
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sábado, 14 de janeiro de 2012
FELIZ ANIVERSÁRIO ELÔ!
Este relapso amigo esqueceu do seu aniversário, na data de ontem. Embora não tenha a mesma graça, daqui mando meu constrangido parabéns a você, desejando que continue sendo nossa fonte inspiradora de dignidade e força. Como sei que 'garça' vai entender, não vou me furtar em dizer: Amo a Elô!
Parabéns, minha querida amiga!
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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
Ruídos... sons da minha infância
por Laura Veiga de Camargo
Um, apito? está chegando um navio. Corro às escadas do sobrado. Eu e Arlete olhamos pela janela lateral. Ficamos lá, curiosidade boba, olhando, querendo adivinhar aquele ponto escuro lá longe, na entrada da baía. Será que é do Matarazzo? O Lídia? Todos os navios do Matarazzo tinham nomes femininos. Das irmãs do Conde.
Quantas namoradas ansiosas esperam… esposas e filhos também, os marinheiros casavam e aqui deixavam suas famílias. Criavam raízes e muitos se tornaram nossos.
Também podia ser o navio de passageiros do Lage. Henrique Lage tinha uma companhia de navegação, a Costeira, os navios sempre com nomes começados com Ita: Itaquera, Itapuca, etc., o Ita foi muito importante pra Antonina. O agente era o senhor José Thomaz do Nascimento, pessoa simpática e muito querida por todos os antoninenses, “o vovô Juca” dos meus filhos. Um contador de histórias de primeira, figura maravilhosa.
Quando chegavam na cidade era uma festa! Certa vez um desses navios trouxe Procópio Ferreira e sua companhia de teatro. Fez uma apresentação no nosso lindo Teatro Municipal, imaginem, foi fantástico. Aconteceram outras vezes óperas famosas, pessoas especiais por aqui passaram.
Madrugada… o som do martelo… senhor Alberto Colecci. Era carpinteiro e emérito marceneiro, que fazia também caixões para nossos mortos. Era um italiano bonito, barrigudo, olhos azuis, todo mundo gostava dele. Quando ouvíamos o martelo bater de madrugada, já nos vinha um pensamento: “quem será que morreu?”.
Outro apito, bem diferente do primeiro. Este é mais perto, forte, contínuo. O trem chegando. A Maria Fumaça. Jovens que esperam seus amores, familiares chegam de longe e as pessoas aglomeradas, ansiosas, esperam na pequena e bonita estação a chegada do trem.
O apito da partida é mais rápido. As vezes triste. Vai levando gente querida… e lá sobe o trem o Morro do Machadinho!
Feito engraçado: às vezes, por falta de “pressão” volta o comboio até a estação e as pessoas que tinham ficado ali, paradas, tristes, se alegram pois, oportunidade maravilhosa de ver mais uma vez o rosto querido, e as vezes até dava pra tocar na mão ou um beijo rápido. Na segunda vez, arranca e vai mesmo. Adeus.
Madrugada, aquele barulho de uma máquina. Não se dorme? Ou dorme-se? Acostuma-se com o barulho e até se acha agradável. É o João Leite editando o Jornal de Antonina. Amanhece, segunda-feira e ele tem que entregar o jornalzinho. Escreve, edita, compõe os tipos, revisa e imprime. Devia haver uma estátua para o João Leite em Antonina. Merecia. Homem de Valor. Do jornal inteligente, político e bem humorado. Lembro de umas muito boas. “Garanta um elogio póstumo assinando o Jornal de Antonina“, ou então: “Aniversariou a menina mais bponita de Antonina, Lurdinha (era sua filha) e Laura veio cumprimentá-la e trouxe um sabonete de presente“(?!!). Contava que seu jornal foi o primeiro do Brasil a ser punido pela “lei da imprensa”. Motivo; tinha um cachorro de estimaçao (raça vira-lata) que o dia todo dormia tranquilamente em frente a tipografia, mas, se aparecia na esquina do Grupo Escolar Brasílico Machado alguém com quem ele não simpatizasse acompanhava a vítima até o posto Texaco, latindo sem parar. Certa vez levou umas bengaladas que o deixaram bem machucado. Seu dono não teve dúvidas, foi ao juiz de direito dar queixa. Não deram a “mínima”! Na próxima edição o jornalzinho trouxe na primeira página, como manchete o acontecimento com o título: “Justiça P…” Foi apreendido o jornal. Naquela semana não ganhou nada, coitado do João Leite.
Bem… Belelém… bate o sino da igreja de São Benedito… não dá pra esquecer. Amanhecendo… a procissão do “Encontro”. A imagem de Nossa Senhora encontra a imagem de Cristo ressuscitado. Dona Sandra Mussi, como Verônica. Toda de preto, véu cobrindo o rosto, canta uma música belíssima com uma voz cheia de encanto. Um belo teatro! Emoção sem tamanho! Momento de magia! Daí segue a procissão até a igreja Matriz para a missa. Bate o sino… chama o povo para a reza.
Lá está a imagem bonita de Nossa Senhora do Pilar, representando a luz que iluminará sempre Antonina, esperando de seu povo bondade, trabalho, solidariedade é fé cristã. Amor, amor e amor. Amém.
do blog Olhar Comum
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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
PRECISO FALAR DE DONA LAURA
Não posso deixar de falar de dona Laura. Minha infância foi vivida na Ermelino de Leão, onde ela morava com o marido Geraldo e os filhos Geraldo Leão, Alexandre e Rafael. Fui frequentador assíduo da casa e ri muito com as histórias do velho Geraldo, do jeito peculiar com que ela contava piadas e me apaixonar pelo seu sorriso reluzento mesmo quando a dor lhe impunha aceitar as reservas da vida.
Quando se mudaram para a Conselheiro Alves de Araujo, fui com eles e lá no quarto do Gê aprendi a amar o rock e ser arrebatado pelo ritmo frenético das “colheradas” incendiárias do velho Geraldo.
Lembro muito bem quando Gê e eu passamos no vestibular – ele nas Belas Artes eu na Federal – e ouvimos dela a reveladora frase: “Este ano foi dos vagabundos”. Logicamente que a interpretação que demos era diferente do contexto comum, tanto que rimos muito, pois sabíamos que a conotação que ela nos deu tinha um amplo sentido de liberdade.
Pois é, dona Laura acordou do pesadelo da vida e agora nada mais importa. Para os que a amam a saudade será aquele membro amputado, fisgando, esperando que o tempo pratique seus milagres.
Só espero que ela não siga a recomendação daqueles que a querem no lugar comum. Não seria justo! A austeridade que há lá não compreenderia seu sorriso reluzente. Mas se assim for, que alguém sempre esqueça a porta aberta...
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sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Feliz Aniversário, minha companheira
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domingo, 13 de novembro de 2011
FELIZ ANIVERSÁRIO, ALYANA
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quarta-feira, 9 de novembro de 2011
ISMAEL
Ismael é daqueles caras que a gente gosta logo à primeira vista. Tive o prazer de conviver e aprender com ele durante o tempo em que tocamos nos Amigos da Carioca. Como todo grande músico, Ismael ama a música e as pessoas, pois através de ambas é que ele se completa, pois só a arte é capaz de dar significado à essência das coisas.
Ismael foi homenageado com o título de cidadão honorário de Antonina. Nada mais justo, pois se não fosse ele Antonina não resgataria sua vocação artística. Ele reacendeu nossa predestinação artística e tal virtude, outrora esquecida, Antonina deve muito a ele e ao seu violão.
Sinto não poder estar aí para homenageá-lo, mas deixo aqui o meu desejo que Ismael continue assim, sendo nossa inspiração e instrumento para que possamos não só chorar nossas dores e rir nossas alegrias, como também cantá-las.
Parabéns Ismael!
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sexta-feira, 4 de novembro de 2011
FELIZ ANIVERSÁRIO MINHA FILHA
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quarta-feira, 6 de julho de 2011
AS COLHERADAS DO VELHO GERALDO CAMARGO
Numa tarde bucólica do outono de 1975, estávamos aprendendo a técnica das colheres com o velho Geraldo, pai do Geraldo Leão, em sua loja de autopeças, no prédio do Rio Apa. Seu método consistia em pegar duas colheres, prendê-las nos dedos da mão, uma sobre a outra, e, intercalando as batidas na palma da mão e nas coxas, acompanhar a música. Não havia canção que ele não acompanhasse - inclusive os rocks mais ferozes -, mas eram os sambas e o country suas especialidades. De súbito, ele largou tudo sobre o balcão e nos disse para segui-lo. Ele vira a professora Lúcia estacionar seu fusca novinho em frente à casa da dona Tite e disse que aprontaria alguma. Saímos da loja e o seguimos ansiosos, para saber qual seria a maluquice que o pai do Gê iria inventar. Paramos em frente à casa da dona Tite e o velho Geraldo, agachado em frente ao carro da professora, nos disse para ajudá-lo. Todos entenderam sua pretensão e nos tornamos cúmplices da sua idílica sacanagem. Geraldo Leão, Chico Liberato e eu pegamos no pára-lama dianteiro direito, enquanto o velho Geraldo, Edson Negromonte e Maurício “galinha” faziam força no pára-choque dianteiro do fusca, com objetivo de colocar a parte da frente sobre a calçada.
Atingido o intento, saímos correndo e ficamos a espreita na porta da loja. Não demorou muito e a professora Lúcia surgiu, acompanhada por dona Tite. As duas conversaram por alguns minutos, sem perceberem o que havia ocorrido com o fusca. Nós, na porta da loja, disfarçávamos o escárnio para que elas não desconfiassem de nada. Minutos depois, Lúcia despediu-se de dona Tite e, ao se virar, deparou-se com o inusitado.
- Meu Deus – exclamou a professora, tentando encontrar algum dano na lataria.
Dona Tite tentava acalmá-la, confortando-a de que não houvera nenhum dano material, mas a professora Lúcia, inconformada, não desistia de uma resposta para o ocorrido.
O velho Geraldo resolveu conferir de perto e nós o acompanhamos. Chegando lá, perguntamos o que sucedia e ela não sabia o que responder, apenas perguntou se tínhamos visto alguma coisa.
- Claro que não – respondemos em cima.
Em seguida surgiram algumas hipóteses:
- Acho que foi o vácuo de um enorme caminhão em alta velocidade – disse um de nós.
- Não! Foi a trepidação! - retrucou outro.
- Vai ver que dona Lúcia bebeu demais – disse Chico, sob o olhar inquisidor de dona Tite.
Depois de algumas explicações absurdas colocamos o carro na posição correta e ela, mas calma, agradeceu. Dona Tite, como nos conhecia, interrogava-nos com o olhar, querendo que um de nós desse algum indício do delito. Mas nos mantemos firmes e eretos, para não trair a confiança do bom e velho Geraldo. Assim que a professora Lúcia se foi, dona Tite, muito desconfiada, dirigiu-se até mim e, com um sorriso no canto da boca, me interpelou, mas eu não cai na sua astúcia. Para que não fôssemos pegos, resolvemos sair à francesa, contendo o riso. Passos depois, durante a travessia da rua, nós ouvimos o pai do Gê falar a cunhada sobre uma possível “barbeiragem” da professora Lúcia que, segundo ele, nada inusitado para uma mulher. Não resistimos a cara de pau do velho Geraldo e gargalhamos, dando a dona Tite o indício de prova do nosso delito.
Quase próximos à loja e sem coragem de olhar para trás, ouvimos a sentença:
- Quem não os conhece que os compre!
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quinta-feira, 23 de junho de 2011
RELEMBRANDO A UTOPIA DE WILSON RIO APA
Como sempre faço, repito algumas postagens antigas para que os novos membros conheçam o blog, bem como os mais antigos possam relembrar o que já fora publicado. A postagem de hoje relembra Wilson Rio Apa e seu sonho alternativo.
Conta Thomas More em seu livro Utopia que a propriedade privada nada mais é que a essência dos males dos homens. Assim também pensou Rosseau, em seu “Discurso Sobre a Origem da Desigualdade”, no qual o escritor defende o retorno à civilização de estado natural, sob novas formas.
Pouco sei de Wilson Rio Apa, exceto pelos relatos daqueles que conviveram com ele e o ajudaram em sua utopia de encontrar no homem o seu senso ético, sempre em comunhão com a natureza.
O fato marcante para mim foi no carnaval de 1975, quando vi na avenida uma enorme caravela repleta de marujos portugueses e ele, em destaque, representando Pedro Álvares Cabral. Outra lembrança foi uma peça de teatro de sua autoria, representada no auditório do prédio da Estiva, onde presenciei uma verdadeira catarse, como se os presentes estivessem assistindo uma tragédia grega de Sófocles. Muitos anos depois descobri que a peça se chamava O Homem Solitário e que fora montada pela primeira vez em 1968, quando eu tinha apenas 10 anos de idade.
Como não tive nenhum contato com ele, tenho pouco a dizer, mas, mesmo distante, sempre soube da sua importância cultural e da sua busca por um admirável mundo novo.
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quarta-feira, 15 de junho de 2011
RELEM SALEMBERG, O POETA DO CARNAVAL DE ANTONINA
Passeando pelo youtube encontrei uma preciosidade produzida pelo Museu Virtual do Siqueira. É um vídeo que mostra uma entrevista interessantíssima com Relem, no qual ele conta sua trajetória de músico e poeta, bem como alguns causos sobre o cotidiano antoninense.
O vídeo ainda mostra um desfile dos Filhos da Capela, em 1999, sob chuva torrencial, que me lembrou as de março deste ano.
A obra e história deste poeta antoninense precisa chegar ao conhecimento do povo e das novas gerações e é prova que o antoninense tem forte tradição artística.
Este vídeo é prova irrefutável que o antoninense tem forte tradição artística e, como já coloquei neste blog, penso que é de suma importância a criançção de uma Faculdade de Artes. Vejo essa possibilidade como uma forma de despertar no jovem antoninense uma maneira mais fertil de enxergar seus valores e padrões psicossociais, utilizando a arte como parâmetro. Além dessas perspectivas, a faculdade possibilita uma movimentação maior na cidade, por conta da vinda de professores e alunos, gerando renda e investimentos.
Outro fator preponderante é a capacidade que o antoninense tem de se engajar nos projetos culturais, como a Filarmônica , liderada por Robertinho e Severino,e os grandes festivais de música produzidos na cidade.
Negar essa tradição e pontecialidade, é não querer enxergar a cidade, sua vocação e anseios.
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sábado, 26 de março de 2011
A TURMA DO LITRO
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sábado, 22 de janeiro de 2011
DONA NILZA E SEU FILHO JOÃOZINHO
por Edson Negromonte
Dona Nilza, a mãe de João, era tão ou mais incomum que o filho. Manquitola, professora e diretora do Colégio Estadual Valle Porto, tinha dificuldade para trocar as marchas do fusquinha azul, a perna dura a impossibilitava de calcar o pedal da embreagem. Por causa disso, atravessava a cidade em primeira. Na volta para casa, a grande diversão dos alunos do noturno era pegar carona com a professora. No cruzamento da Avenida Matarazzo com a Rua Mestre Adriano, que dá acesso ao centro, Dona Nilza parava o carro e mandava que um deles, quase sempre o do banco da frente, na condição de co-piloto (e como o lugar era disputado!), descesse para ver se ela podia continuar o trajeto. Andava tão devagar que, às vezes, só por farra, saíam dois, três meninos e, enquanto o primeiro embarcava, os outros fingiam correr ao lado, fingindo emparelhar com o carro. De vez em quando, um engraçadinho, na corrida, ultrapassava o fusquinha para embarcar de volta, mais adiante. Tudo era uma grande brincadeira para os rapazes que, independente da idade, ela tratava por meninos.
Numa das suas inesquecíveis aulas de História (como ela amava a disciplina!), Dona Nilza estava a discorrer com propriedade sobre a Revolução Francesa, íntima de Robespierre, Danton, Jean-Paul Marat, como se do grande acontecimento tivesse participado de fato, quando foi interrompida por Zico, seu afilhado, bagunceiro de marca maior, dizendo qualquer besteira sobre a lição da aula anterior, só para atrapalhar a explanação da mestra. Irritada com o corte súbito em seu devaneio, Dona Nilza responde ríspida:
– Isso eu dei na semana passada!
– Se deu, eu não comi - retruca Zico, do fundão.
– O quê, menino?! – diz ela, surpresa, fazendo-se de surda.
Noutra aula, estava Dona Nilza empolgada com a peste negra que assolou a Europa na Idade Média, descrevendo os sintomas da doença, pulgas, ratos, mongóis, sangramentos, mortandade, inchaços, bubos,.. Foi aí, então, que eu, leitor de aventuras, levantei o dedo e a interrompi; eu tinha acabado de ler um romance juvenil ambientado na época da peste bubônica.
- Eu li um livro sobre isso, aparecem uns caroços pelo corpo, na cabeça, parecido com a boba que dá na cabeça do pinto...
- Deixe de besteira, menino!
Enquanto eu tentava consertar ao mal-entendido, a classe vinha abaixo.
- É verdade, Dona Nilza, o pinto fica mole, todo mole, a cabeça pra lá e pra cá, e cai.
- Já disse para você ficar quieto!
- Mas, Dona Nilza, a senhora já viu como o pinto fica?
- Cala a boca, eu já disse!
Ainda tentei explicar que eu estava me referindo ao filho da galinha, que eu tinha conhecido a doença no sítio do meu avô, mas não teve jeito: mandou-me para fora da sala, sem conseguir disfarçar o sorriso nos lábios finos.
Certa vez, eu e Chico Liberato, companheiro de bagunça, fomos chamados à diretoria por termos ofendido o inspetor escolar. Na presença do inspetor, Dona Nilza perguntou por que tínhamos desacatado o inspetor, pronta para nos passar um sabão ou, pior, uma suspensão.
– Mas, Dona Nilza, a gente o chamou pelo nome, Seu Filhinho – disse Chico, fazendo uma voz fina e aflautada de mulherzinha ao pronunciar o nome do inspetor.
Não que Seu Filhinho fosse maricas, mas para nós, adolescentes descobrindo o mundo, prontos para gozar de tudo, soava muito estranho que um homem velho como ele fosse chamado de Filhinho.
– Saiam daqui, seus desordeiros! Da próxima vez, serão suspensos! – despediu-nos, sem poder disfarçar o riso.
Joãozinho, assim a mãe o chamava, assim ele era conhecido na cidade, apesar de ser grande e forte feito um touro, de peito estufado, briguento. De voz tonitroante, sabia ser delicado e afável, uma moça, quando necessário. Riso escancarado, passadas largas, os pés abertos, dez para as duas, espalha merda.
Uma vez, durante a sua festa de aniversário de 20 anos, Joãozinho tirou da gaveta um revólver e passou a aterrorizar os convidados, simulando uma roleta-russa. Apontava para a cabeça dos convidados e, click, ria às bandeiras despregadas. Encostava o cano na própria cabeça e click. Click, click!
– Deixa de ser louco! - diziam.
– Para com isso, Joãozinho! Para já! – grita dona Nilza, da cozinha.
– Mãezinha, a arma tá vazia – responde Joãozinho, divertindo-se.
– Olha, que o diabo atenta!
– Tá vazia, sem bala, mãezinha! Olha só, quer ver?
E Joãozinho, apontando a arma para a própria mão, aperta o gatilho. Click! Click, click!
Sabe-se lá, sem como nem porquê, o revólver dispara, e uma bala atravessa a palma da mão do aniversariante, e passando rente à cabeça dos convidados vai se alojar na parede. Segundos de silêncio, de descrença... Ao perceber o vermelho do sangue, do próprio sangue, Joãozinho começa a gritar desesperado, segurando a mão, choramingando. Por isso, e somente por esse pequeno incidente, Joãozinho, o filho da Dona Nilza Machado, a professora de História e diretora do Colégio Estadual Valle Porto, ficou conhecido para sempre como João Bang.
Para fechar a crônica, devo relatar também o enterro de Dona Nilza, embora isso me doa muito, assim como deve ter doído a todos os seus conterrâneos, assim como deve ter doído muito mais ao seu filho que, apesar da dor, teve que dar, ao telefone, a triste notícia ao irmão que morava no norte do Paraná:
– Joel, vem rápido pra Antonina, que a velha fodeu-se.
Ao sair o féretro, uma verdadeira multidão o acompanhava. No meio do caminho, uma chuva fininha foi engrossando aos poucos. Então, os condutores do caixão acharam melhor apertar o passo. Indignado, João Bang pulou na frente do carro funerário, de arma em punho.
– Devagar aí, miudinho, que isso não é enterro de vagabundo!
Postado por
Amigos do Jekiti
às
20:17
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