"Monocrômica, anacrônica, atraente, arcaica Antonina, não amo-te ao meio, amo-te à maneira inteira."
Edson Negromonte.



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quinta-feira, 16 de junho de 2011

A ODISSÉIA DA PATRULHA TOURO

ANO NOVO EM ITAPETININGA


Partiram de Capão de Bonito rumo ao nordeste. O sol de Verão reluzia sobre o campanário da Igreja Nossa Senhora do Rosário e eles caminhavam, recordando a boa hospitalidade do povo e das autoridades locais. Às 09:30 horas cruzaram as fronteiras do município, cortando a grande campina, e pararam no entrocamento de duas estradas, onde chefe Beto reuniu a tropa para que o ajudasse a escolher o melhor caminho. Depois de minutos debruçados sobre o mapa, decidiram seguir pela estrada mais longa, passando por Gramadinho, Itapetininga, Sorocaba e São Roque, desviando dos pequenos lugarejos, onde os recursos eram escassos.
Decidida a trilha caminharam por 40 quilômetro até chegarem em Gramadinho, ao anoitecer. A cidade estava deserta e na praça principal, em frente à Igreja Matriz, Milton Oribe sentou-se em um dos bancos e reclamou aos demais que não se sentia bem. Manduca levou sua mão à testa do companheiro e disse aos demais que Milton estava febril. Manduca e Canário correram até um pequeno repuxo e trouxeram água para Milton, enquanto Beto olhava ao redor, à busca de uma lugar proprício para acamparem.
Milton tomou sua água para aliviar o sintoma e em seguida, com o comando do chefe Beto, seguiu com os demais, na direção de um terreno cercado de arame farpado. Enquanto Milton se restabelecia sobre a mochila, os demais montavam o acampamento ao lado de um poço de água potável. Muito cansados resolveram repousar. Lydio voluntariou-se para a primeira guarda, mas chefe Beto ordenou que todos fossem dormir, pois deveriam seguir muito cedo na direção de Itapetininga .
Logo cedo partiram de Gramadinho, sem conhecer nenhum costume local. A estrada estreita era coberta por eucaliptos, aliviando em seus corpos o intenso calor. Milton Oribe, depois do sono reparador, sentia-se melhor, mas a cabeça doia um pouco.
Depois de caminharem alguns quilômetros, avistaram uma pequena pastagem, onde havia algumas vacas e, ao longe, uma pequena casa de madeira. Beto pediu aos demais que conferissem a quantidade de água em seus cantis e ordenou que descansassem sob a sombra de uma árvore para que Milton pudesse se restabelecer. Lydio e Manduca resolveram ir à busca de água para completarem seus cantis. Milton, aparentando coragem e firmeza, disse a Beto que gostaria de seguir em frente, mas o chefe, sensível a situação do subordinado argumentou que o Sol estava quente demais e que o descanso era necessário. Lydio e Manduca regressaram com os cantis cheios, mas Beto preferiu dar alguns minutos para que ambos descansassem.
Dez minutos foi o suficiente e seguiram em frente. À medida que caminhavam, sentiam-se mais forte, mais preparados para completarem a missão. Habituaram-se com a rotina dura e densa, sem se queixarem, mas a preocupação ainda era Milton, que aparentava sentir os dias difíceis. 
À tardinha avistaram as primeiras casas. Beto, sempre afrente, alertou que poderiam estar em Itapetininga e Milton, sentindo-se melhor, apurou o passo, passando por Mnaduca e Canário. Lydio aproximou-se de Beto para ver melhor as casas e disse ao chefe que só podia ser Itapetininga. Alguns minutos de caminhada foi o suficiente para que eles tivessem a certeza que chegaram em seu destino. A estrada descia, serpenteando a mata densa, e eles, ansiosos por um banho e comida, apuraram o passo.
A temperatura estava amena e a cidade se iluminava aos poucos. Nas ruas as pessoas paravam nas calçadas, interrogativas, querendo saber o que aqueles meninos com os olhos austeros faziam na cidade. Alguns faziam perguntas e eles, solícitos, respondiam sobre a missão, tentando fazer com que a população entendesse a odisséia. Beto olhou para o final da rua e avistou um quartel do exército e quis saber de um transeunte qual era o nome do Batalhão: - É o Quinto Batalhão – disse o morador - . E quem comanda é o tenente-coronel Orlando Werney Campelo.
Em dez minutos chegaram ao portão do quartel e lá se identificaram. Imediatamente os cinco foram levados à sala do comandante. Beto entrou primeiro e se apresentou ao tenente-coronel, que em seguida pediu que os demais entrassem.
O comando Orlando disse aos meninos que quando adolescente foi escoteiro, elogiou-os e em seguida ofereceu as instalações para eles pernoitarem.
Conversaram por alguns minutos e chefe Beto fez com que o comandante assinasse o livro de visita. Foram levados ao refeitório e lá jantaram uma comida simples, porém bem temperada. A curiosidade dos militares era grande e Beto, sentindo-se orgulhoso, contava em detalhes sua missão, enfatizando os problemas econômicos ocasionados pelo embargo marítimo.
Por volta das oito horas da noite se instalaram em um dos alojamentos e Manduca, olhando para o relógio, lembrou a todos que à meia noite chegaria o novo ano. Os demais deram pouca importância ao que Manduca falara e resolveram descansar em suas camas de campanha.
Próximo da meia noite eles foram acordados por rojões de fogos de artifícios. Da janela eles olhavam o céu repleto de filigranas coloridas e a tropa no pátio, como se fosse uma data comemorativa. No mastro a bandeira nacional tremulava e uma ordem unidade foi grita, obrigando a tropa a se organizar no meio do pátio. Os soldados eram em número de dez, dando a entender que os demais estavam de folga. O Hino Nacional deu a introdução no alto-falante e os cinco meninos, em posição de sentido, acompanhavam a tropa. Austeros e eretos eles cantavam o hino, segurando as lágrimas das lembranças, das saudades e dos brinquedos jamais esquecidos.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O HERÓI DE GUAPIARA

Andaram margeando a estrada até Guapiara, distrito de São José do Paranapanema. Andaram pela rua principal, na direção da prefeitura, onde deveriam entregar o Livro Diário ao prefeito. Enquanto caminhavam, os cincos se surpreendiam a quantidade de japoneses que passavam em carroças com a produção agrícola.
Enfim chegaram à prefeitura e, depois de muito esperarem, foram avisados que o prefeito não os receberia. Desolados, porém determinados, foram à delegacia, que ficava a poucas quadras, e se apresentaram ao delegado. Assim que narraram a odisséia, o delegado, de nome Péricles, lhes deu um caloroso abraço e imediatamente lhes ofereceu sua residência para pernoitarem.
À tardinha banharam-se no Rio Pequeno e depois visitaram a cidade. Praça, igreja e prédios públicos eram extremamente bem cuidados. Havia um bom hotel e alguns estabelecimentos comerciais, nos quais, em sua maioria, vendiam o que os rurícolas produziam.
À noite não saíram, pois estavam extremamente cansados. A esposa do delegado serviu-lhes o jantar e depois um café na varanda, onde puderam se deliciar com a brisa leve e com as histórias do delegado sobre a cidade. Dr. Péricles tinha o hábito de fumar cachimbo, de falar muito e gargalhar com uma boa piada, mas a sua maior característica era o seu jeito espalhafatoso com que contava suas histórias sobres os bandidos que prendeu.
Segundo ele, o mais perigoso homem que ele prendeu foi João “boca rica”, cujo apelido lhe valeu pelos dentes de ouro que tinha na frente da boca. Segundo Péricles, João era metido a brigar em bares, simplesmente por não gostar de pagar a conta. Na noite em que foi preso, João discutiu com um cliente sem razão aparente e Péricles foi avisado. Assim que chegou encontrou João brigando, aos socos, com mais dois freqüentadores do bar. Sem cerimônia, Péricles sacou da arma e exigiu que a confusão terminasse. João, sem medo, encarou o delegado e lhe disse:
- Se tu és homem, largue a arma e venha na mão.
Péricles aceitou o desafio e os dois foram para fora do bar acertar as contas. Antes do combate, Péricles lhe propôs um acordo:
- Se você perder a briga vai para a cadeia vestido de mulher.
- E se eu ganhar? – retrucou João.
- Deixo você partir e pago o prejuízo.
João, com um meneio de cabeça, concordou e partiu para cima de Péricles...
Os espectadores gritavam a favor do delegado e este, como Joe Louis, bailava na frente de João, tentando cansá-lo. Este, mais forte, porém com menos cérebro, partia para cima de Péricles de maneira espalhafatosa, sem nenhum soco acertar. Já ofegante e sem forças para acertar os golpes, João, aos pouco era abatido por Péricles, com jabs de esquerda. A multidão, percebendo que Péricles a qualquer momento nocautearia João, se inflamava e pedia logo o fim da luta. Por fim veio o golpe de misericórdia, no queixo de João "boca rica", que caiu na rua de paralelepípedo, sem conseguir reagir.
A multidão gritava o nome de Péricles, enquanto a esposa do dono do bar trazia um de seus vestidos para colocar em João “boca rica”. Péricles, nos ombros da multidão, levantava os braços, como se ganhasse o título dos Pesos Pesados, enquanto João, já devidamente vestido, esperava para pagar sua dívida.
Depois que terminou a história, Péricles, em meio ao seu orgulho, baforava seu cachimbo e, com um leve sorriso vitorioso no rosto gordo e bolhachento, disse aos cinco escoteiros boquiabertos:
- Numa briga o que vale mais é o cérebro. 

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A ODISSÉIA DA PATRULHA TOURO

UM CASAMENTO EM APIAÍ

Na madrugada seguinte acamparam entre rochas, ao pé da Serra do Apiaí, com o intuito de chegarem à cidade no dia seguinte. De manhã Canário e Manduca foram à procura de lenha e gravetos, enquanto Lydio foi buscar água no Rio Apiaí-mirim para o café e depois seguirem a caminhada até a cidade Apiaí. Beto foi poupado do trabalho por conta das assaduras nas coxas e ficou descansando, enquanto Oribe preparava o material para seguirem em frente.
Por volta das 07hrs30min partiram, sob a manhã fresca, na direção do Portal da Mata Atlântica. Sem descanso chegaram as 11hs30min em Apiaí. A cidade estava em festa, pois era o dia de São Benedito, padroeiro da cidade. Andaram em meio a multidão e barracas, atraídos pelas ofertas das bugigangas. Alguns queriam parar e conferir a festa, mas chefe Beto os ordenou que seguissem em frente, na direção da Prefeitura Municipal.
Ao chegarem no Passo Municipal, foram informados que o prefeito não poderia recebê-los, devido aos compromissos dos festejos. Os escoteiros, decepcionados, com o Livro Diário nas mãos, resolveram não insistir e partiram, sem saber se seguiam em frente ou se paravam para descansar. Chefe Beto deu a ordem para que acampassem longe da aglomeração, próximo a um hospital em construção. As assaduras eram o que mais lhes incomodavam, muito mais que a decepção de não serem recebidos pelo prefeito.
Do acampamento era perfeitamente possível contemplar a natureza da cidade, cercada de morros com declives e planaltos. A terra roxa propiciava o cultivo do tomate, milho arroz e feijão, bem como a fruticultura, através do cultivo do pêssego, caqui e laranja.
À tarde foram fazer compra num comércio distante um quilômetro do centro e depois, às 17 horas, foram acompanhar a procissão de São Benedito.
Pernoitaram em Apiaí e logo cedo seguiram, margeando a rodovia SP-250. O movimento de carros e caminhões era intenso, mas eles seguiam, confiantes, ora assobiando ora cantando dobrados militares. Ao meio dia pararam para o almoço e cuidaram das assaduras com pomadas anestésicas. Em seguida, retomaram a caminhada, ainda sobre intenso movimento da rodovia, com o intuito de chegarem em algum lugarejo para pernoitarem.
A noite já caía e eles, menos aflitos, avistaram um lugarejo com apenas nove casas. Um senhor alto e com um cassetete nas mãos aproximou-se, querendo saber os que cinco desejavam. Imediatamente Beto informou-o sobre a missão e o homem, que era uma espécie de inspetor de quarteirão, ofereceu-lhes uma casa abandonada para pernoitarem.
Depois de acomodados, o senhor lhes ofereceu uma janta e ainda os convidou para assistirem o casamento da filha. Impressionados, todos imediatamente foram tomar um banho e vestirem seus trajes especiais de escoteiros. Por volta das 20 horas, os cincos se juntaram à família dos noivos e juntos foram para a associação de moradores, que ficava em frente a uma pequenina praça. Na porta, eles se surpreenderam com a chegada do noivo, vestido de terno de listra, chapéu de cowboy, montado num belo cavalo negro. Em seguida, surgiu a noiva, numa charrete enfeitada de flores campestres, puxada por dois cavalos brancos e, em seguida uma outra charrete com as daminhas de honra. Minutos depois, chegaram o Juiz de Paz e o Escrivão, ambos de Apiaí.
A cerimônia foi rápida e os noivos, seguidos pelos familiares e convidados, se despediram, sob choros das mães e votos de felicidades dos parentes e amigos. Manduca virou-se para o Inspetor e perguntou se haveria a tradição de jogar arroz nos noivos. O pai da noiva sorriu e imediatamente sacou de um revolver, dando vários disparos para o alto, seguido pelos demais...

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A ODISSÉIA DA PATRULHA TOURO

UM NATAL EM RIBEIRA

Partiram de Epitácio Pessoa por volta das 07h: 30min. Seguiram pela estradinha de terra com os olhos grudados nos vários monjolos que se estendiam pela estrada. As pessoas que moravam nas pequenas propriedades os acompanhavam de suas janelas, com os olhos curiosos, como se ainda estivessem em plena Revolução Cosntitucionalista. 
Por volta das 11h00min pararam em um descampado para almoçar e, depois de um breve descanso, seguiram com o intuito de passarem a fronteira que divide o Paraná de São Paulo.
As 14h30min passaram pelo lugarejo de Barra Grande e uma hora depois chegaram à rodovia federal, Margeando a estrada seguiram com destino a Paranaí. Depois de três léguas de dura caminhada, chegaram à fronteira dos dois estados e ali avistaram uma enorme placa com a frase: SEJAM BEM-VINDOS AO PARANÁ, TERRAS DOS PINHEIRAIS.
Alguns metros depois encontraram um posto fiscal, onde pararam para conversar com os funcionários. Serviram-se de chimarrão e, enquanto falavam sobre a missão, diviam sua atenção entre os fiscais e o intenso movimento da rodovia. Manduca disse que desde que saíram de Antonina, há oito dias, não via um veículo motorizado.
Chefe Beto, atento ao horário, informou aos comandados que tinham que continuar a caminhada para chegarem a Capela da Ribeira antes do anoitecer. Despediram-se dos fiscais, mas antes de seguirem, Canário propôs a todos que deveriam entrar em território paulista com o pé direito. Assim o fizeram e seguiram, margeando a movimentada rodovia...
Assim que eles chegaram a Capela da Ribeira, foram à Prefeitura Municipal e lá souberam do chefe de gabinete do prefeito que a cidade se chamava Ribeira, um município da Comarca de Apiaí, São Paulo. Chefe Beto, imediatamente, olhou o mapa e pediu maiores esclarecimentos sobre a região, já que a tropa deveria seguir na manhã seguinte com destino a Apiaí. O Secretário Municipal também informou que a localidade de Epitácio Pessoa, por onde passaram no dia anterior, passou a se chamar Paranaí, território ligado a Bocaiúva do Sul, Paraná.
Chefe Beto sentou e reuniu a tropa para analisarem o mapa e depois das necessárias correções, disse aos quatros comandados que na manhã seguinte caminhariam com destino a Apiaí. Percebendo o estado deplorável em que os cincos se encontravam, o senhor secretário convidou-os para passar mais um dia em Ribeira e participarem das festividades de Natal. Sem hesitação chefe Beto aceitou, mas antes pediu ao secretário onde havia um posto de telégrafo para passarem uma mensagem a Antonina. No exato momento em que se dirigiam à porta, o estafeta dos Correios entrou com dois telegramas endereçado ao chefe Beto - um era da Prefeitura Municipal de Antonina e o outro do chefe Manoel Picanço – nos quais demonstravam preocupação com o estado de saúde dos cincos comandados e pediam informações sobre a missão.
Imediatamente chefe Beto redigiu as informações e os demais escreveram para suas famílias. Assim que o estafeta saiu com as mensagens o secretário os convidou para conhecerem a casa que pernoitariam e ainda os convidou para irem à Missa do Galo...
De banho tomado, eles saíram para conhecer a cidade e conversarem com a população. Na praça Lydio conheceu uma moça de nome Yolanda. Ela tinha cabelos negros, olhos escuros e gestos delicados. Enquanto o casal conversava, os demais, metros de distância, tentavam desmantelar a lisura de Lydio com alguns sarcasmos, Mas Lydio permanecia fiel à moça e não desvia o olhar dos olhos vacilantes da moça. De repente Yolanda olhou as horas e se despediu de Lydio, sem deixar esperança, seguindo veloz na direção de casa. Os demais se aproximaram e dispararam alguns gracejos contra o amigo, que amuado, preferiu se sentar em um banco e acompanhar os casais passeando na praça.
No dia seguinte acordaram tarde e foram ao Rio da Ribeira para se refrescarem. Ao meio dia almoçaram e depois de um pequeno descanso, saíram para a última visita a cidade. Beto foi ao alfaiate consertar a calça do uniforme que rasgara durante a caminhada, enquanto os demais resolveram andar de bicicleta pela redondeza. Durante o passeio eles se espantaram com os buracos das balas nas paredes da antiga igreja. Manduca parou sua bicicleta e olhou, estarrecido, como se não acreditasse no que seus olhos miravam. Os amigos o chamaram e ele, seguiu, mas sem esquecer daqueles que tombaram durante as batalhas da Revolução Constitucionalista de 1932.
Depois da janta eles arrumaram seus pertences e se despediram da cidade de Ribeira, sob os olhares atentos da população. Alguns habitantes os acompanharam, até os cinco se perderem no breu da noite. Com as lanternas acesas eles seguiam, em fila indiana, mais confiantes, na direção de Apiaí. Chefe Beto seguia na frente, altivo, com os olhos atentos para a margem da estrada estreita. Logo atrás, Milton se certificava de que não havia deixado nenhum material em Ribeira; Manduca e Canário, olhavam o céu, a busca de estrelas, enquanto Lydio, pensava em Yolanda, tentando acomodar no peito a saudade por ela.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A ODISSÉIA DA PATRULHA TOURO

A CAMINHO DA CAPELA DA RIBEIRA

Caminhavam com cautela pela Serra da Bocaína para não errarem o caminho da Vila de Bonsucesso. Chefe Beto ia à frente, conferindo a trilha, enquanto Lydio encerrava a fila indiana. Sem comida e com pouca água eles seguiam pela mata, um distante do outro, alguns suplicando para si por uma boa refeição e cama macia. Chefe Beto quando os viu distantes e desanimados resolveu parar e juntar a tropa. Deu a cada um pouco d'água com açúcar para ludibriarem a fome e seguiram em frente.
Por volta do meio dia eles chegaram a uma estrada estreita e lamacenta, que segundo chefe Beto era o caminho para a Vila de Bonsucesso. Enquanto caminhavam Manduca e Canário conversavam sobre a proximidade do Natal, que seria dali a dois dias e por um instante a saudade da família lhes fez de refém. Milton era mais atento a paisagem, as orquídeas que quebravam o verde excessivo da Mata Atlântica, diferente de Beto e Lydio que só se preocupavam em desviar-se dos buracos da estrada.
Alguns metros depois cruzou com eles uma cabocla de olhos rasgados, sobre um cavalo magro e, sem disfarce, acelerou o trote na direção oposta, gritando: “É a Patrulha Volante”. O medo fez com que chefe Beto, imediatamente, ordenasse que entrassem na mata para evitarem algum possível conflito... Minutos depois, sem nada ter ocorrido, seguiram, com cautela, a caminhada em direção à Vila Bonsucesso.
Ao longe eles avistaram algumas casas simples e imediatamente imaginaram que algum perigo estava a vista, por conta dos brados da jovem morena. Mesmo com fome, chefe Beto não quis arriscar sua tropa e disse aos seus comandados para contornarem a vila, abrindo picada pela mata. Depois de meia hora de caminhada, eles avistaram um campo limpo, onde havia um pé de Ingá. Ali saciaram sua fome e descansaram um pouco sob a sombra da árvore.
Às 14h30min passaram por Antinha, onde fizeram uma refeição rápida e compraram mantimentos. Às 15h30min chegaram a Ouro Fino, onde acantonaram em um campo aberto aos quatro ventos. Próximo dali havia um regato de águas límpidas e geladas, que corria para o leste, ladeado por um caminho que serpenteava para dentro da mata, pelo qual se chegava a um desfiladeiro.
Ali fizeram uma refeição e, depois de meia hora de descanso, seguiram a caminhada, cortando o amarelado campo de linho. Uma hora depois chegaram a Serra do Cadeado e a contornaram por um caminho menos acidentado. Por volta das 17h00min passaram por São Sebastião e as 18h00min em Tuneiras, onde pernoitaram num paiol de milho cedido por um dos moradores da localidade.
Logo cedo, depois do café reforçado, seguiram com destino à Capela da Ribeira, sabendo que antes teriam que passar por Epitácio Pessoa. Andaram pela estrada carroçável, cruzaram pontes podricalhas até chegarem a um salto d’água, de nome Salto Tuneiras, sob o Rio Passa Vinte. Sabendo que não poderiam perder tempo, seguiram caminho pela estrada estreita, margeada por caminhões destroçados durante os combates da Revolução Constitucionalista de 1932. Quando chegaram a Gaganta do Leandro, eles se depararam com uma infinidade de cruzes, as quais marcavam os soldados mortos durante a batalha.
Às 12h30min passaram por Poço Grande e às 14h45min em Maria Gorda, onde ficava a mina de cobre Garapongá. Como estavam atrasados, seguiram a caminhada, por um caminho que margeava um rio de águas turbulentas e uma encosta íngreme de rochas sedimentares. Por volta das 15h30min acessaram uma estreita estrada, ladeada por árvores frondosas que impediam a entrada da luz do Sol e alivia o calor.
Às 18h30min chegaram ao povoado de Epitácio Pessoa. No alto do lugarejo uma pequena igreja comandava as casas simples, de parede de estuque, cujos moradores trabalhavam na lavoura. Havia uma única rua, mal conservada, que seguia para o norte, por onde eles seguiriam, logo cedo, para chegarem à Capela da Ribeira, na véspera de Natal.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A ODISSÉIA DA PATRULHA TOURO


PICO PARANÁ, O PRIMEIRO GRANDE DESAFIO

Com os músculos doídos, eles chegaram a Cachoeira de Cima, depois de atravessarem o Rio Cachoeira. Seguiram pela mata fechada até chegarem num lugarejo de pessoas que viviam da roça. Já na primeira residência fizeram uma pequena parada e beberam água. Quem os recebeu foram os familiares do sr. Said, que logo os acolheram para um almoço com galinha assada, arroz e farofa, depois, como sobremesa, caldo de cana bem fresquinho.
As catorze e trinta horas, com o sol mais ameno, puseram-se a caminhar pela estrada do Timbu, hoje Campina Grande, que ligava o sul de São Paulo ao Litoral Paranaense. Manduca, por ser um pouco obeso, reclamava das assaduras; Lydio, com bolhas nos pés, sentou-se sob uma árvore, e Chefe Beto, dentro de sua autoridade, deu-lhe apenas cinco minutos. Enquanto Lydio furava suas bolhas, Canário gritou que tinha visto uma cobra. Milton e Chefe Beto empunharam seu bastão e a mataram.
Às dezessete horas chegaram ao rio Saci e atravessaram a ponte. Depois de meia hora de caminhada os escoteiros chegaram num pequeno povoado localizado próximo a estrada de Bocaiúva. Pararam em uma pequena fábrica de mandioca abandonada, onde resolveram passar a noite. Manduca fez o fogo, enquanto os demais foram colher aipim numa roça, que Milton tinha avistado nos fundos da fabriqueta abandonada.
A noite caía espessa e Manduca preparava a janta, engrossada pelos talos da mandioca. Milton e Lydio escoraram, com cordas, as paredes da pequena fábrica, com medo que elas desabassem sobre suas cabeças, enquanto Canário ajudava Manduca na comida.
A comida estava pronta e eles sentaram em volta do fogão improvisado. Enquanto comiam, Beto sugeriu que fizessem uma fogueira e que montassem guarda de duas em duas horas. Esta providência era necessária já que ouviram de alguns moradores do local que a região era infestada de animais selvagens.
Eles se levantaram às cinco da manhã. Era dia 19 de Dezembro, dia da Emancipação Política do Paraná, lembrou Canário. Tomaram café com biscoito e empunharam seus bastões e mochilas. Chefe Beto puxou uma pequena oração, pedindo a Nossa Senhora do Pilar proteção e força para seguirem em frente.
O sol estava alto e iniciaram a jornada atravessando a roça de aipim, a caminho da temida do Pico do Paraná. Ora um ora outro tomava a frente, cuidando para não errarem a picada.
O medo estava estampado em seus olhos. Pela primeira vez o desejo de desistirem e voltarem já fazia parte de seus pensamentos. Mas ninguém ousava em tocar no assunto com medo de quem alguém o chamasse de covarde. Finalmente chegaram à casa do último morador da região e ali souberam do senhor Antônio Órfão que já estavam próximos ao Pico do Paraná, com seus 1962 metros de altitude. Era o trecho mais difícil e perigoso da missão, pois teriam de enfrentar a mata fechada cheia de espinhos e urtigas, desfiladeiros traiçoeiros, jararacas, urutus, caninanas, e aranhas caranguejeiras. Vendo o espanto nos olhos dos companheiros, Chefe Beto bradou:
- Chegou a hora de provarmos a nossa glória!
Foram horas caminhando sem água. Mesmo sem a ordem para descasar, Manduca tirou seu material e sentou-se no meio da picada e Chefe Beto entendeu, dando-lhes alguns minutos de descanso. Depois seguiram pela íngrime escalada, passando por penhascos e grotas, até chegarem ao Rio Cachoeira. Ao verem as águas correntes, eles tiraram suas roupas e banharam-se por alguns minutos. Fizeram um lanche rápido e seguiram em frente, pela trilha incerta. Meia hora depois pegaram uma estrada larga, ladeada por casas simples e bem conservadas. Pararam em uma das casas para pedirem informações de como chegariam a Capivari e o morador lhes disse para seguirem em frente, margeando um riacho.
Após três horas de caminha, montaram suas barracas para tentarem dormir, mas por volta das quatro da madrugada caiu uma forte tempestade. O temporal os obrigou a seguir em frente, pela trilha longa e lamacenta para encontrarem um lugar seguro.
Já amanhecia quando chegaram no comércio de Alderico Bandeira. Encharcados, pediram ao proprietário para ceder um cômodo onde pudessem trocar de roupa. Sem exitar seu Alderico lhes ofereceu o salão ao lado do armazém e ali eles puderam trocar suas roupas e descasarem um pouco.
Às oito e trinta, tomaram café com pão caseiro e marmelada. Através da janela eles podiam ver a criação de suínos da raça Duroc e a extensão da propriedade. Foi então que Alderico lhes disse que o lugar se chamava Capivari. (localidade que foi submersa pelas águas da Usina Parigot de Souza).
À tardinha eles chegaram na localidade de Praia Grande, depois em Serraria e, ao atravessarem o Rio Tucum, avistaram o lugarejo de São Pedro, no distrito de Bocaiuva, onde compraram mantimentos para seguirem em frente.
Depois de andarem pela mata fechada, abrindo picadas, encontraram uma clareira e ali pararam para pernoitar, mas antes Chefe Beto resolveu conferir a trilha e projetar a caminhada até a Capela da Ribeira, passando pelo lugarejo de Bonsucesso, pela difícil Serra da Bocaína, pelas vilas de Antinha e Ouro Preto e por fim pela difícil passagem da Serra do Cadeado, até chegarem em São Sebastião e Tuneiras.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

A ODISSÉIA DA PATRULHA TOURO


A CAMINHO DA SERRA NEGRA

Depois de andarem quatro quilômetros e meio, os cinco escoteiros pararam para o primeiro acantonamento. Era uma olaria abandonada, encravada no meio da mata da estrada para o Cacatu. Ali eles fizeram o primeiro lanche e Beto, a título de experiência, resolveu que cada escoteiro deveria guardar turno de duas em duas horas.
Logo cedo, os cincos seguiram pela estrada de Curitibayba, com destino a Morro Grande. A estrada era barrenta, rodeada pelo verde muito pouco variado da Mata Atlântica. O sol quente e o peso do material fustigavam seus corpos. A cada passo Antonina ficava mais distante, o perigo se tornava real, mas dentro deles ainda permanecia o sentimento de orgulho.
Chefe Beto ia à frente, altivo, brioso, apesar da baixa estatura. Ele carregava nos ombros 20 quilos de material e uma tonelada de responsabilidade. A cada passo se convencia de que precisa ser austero com os comandados e por isso os avisava para não tagarelarem para pouparem suas forças.
Depois de caminharem por quatro horas chegaram à localidade de Morro Grande. Avistaram uma residência e ali resolveram descansar um pouco. Quem os recebeu foi o Sr. Bernardo Moreira, que os convidou para almoçarem. Enquanto a comida era preparada, o anfitrião lhes servia um chimarrão na varanda, onde esclareceram à família do Sr. Bernardo alguns detalhes sobre o raid. Naturalmente houve reações de espanto, mas não deixaram de cumprimentá-los pela coragem e espírito cívico.
A mesa foi posta. Havia feijão com toucinho, arroz, carne de porco, e para acompanhar, a deliciosa farofa de frango que Milton Horibe trouxera para a viagem.
Ao meio dia, chefe Beto agradeceu a hospitalidade e foram arrumar o material. Sr. Bernardo lhes indicou o melhor caminho para o Cacatu e que deviam atravessar o Rio do Meio. Depois de uma calorosa despedida, partiram sob aceno de mãos e voto de sucesso na empreitada.
Às treze horas atravessaram um riacho. A mata era fechada e com seus facões iam abrindo picadas. Às catorze e trinta chegaram a uma pequena venda, onde um senhor japonês de nome Mokito Yassumuto lhes vendeu alguns mantimentos. Os pés começavam a doer e Canário e Manduca tiraram seus sapatos. Andaram mais quatro quilômetros e avistaram próximo ao portão da Fábrica de Papelão e Pasta Mecânica, do Sr. Ítalo Pelizi, um caboclo que os ensinou o caminho mais curto para atravessarem o Rio Cachoeira e chegarem a Serra Negra.
Ao chegarem à margem direita do rio, Lydio sugeriu que atravessassem a nado, mas Milton advertiu que o rio era fundo e tinha muita correnteza. Chefe Beto decidiu esperar por algum barqueiro da região e disse para todos descansarem um pouco.
Às dezessete horas, um barqueiro que sempre passava por ali, conduziu-os a outra margem do rio. Meia hora depois, chegaram ao Distrito de Cachoeira, onde eles pararam na fazenda Olímpia para passarem um telegrama a Antonina para avisarem onde estava estavam.
Escurecia rapidamente. Sabendo que não poderiam continuar, Sr. Yamaguti colocou a disposição um cômodo da casa e pediu à esposa que preparasse um jantar. Próximo à fazenda havia um riacho e lá eles se refrescaram para poderem dormir melhor. Os corpos já sentiam os primeiros sinais de fadiga: os músculos doíam, os pés inchavam e havia muitas marcas de mosquitos no corpo.
Cansados, custaram a dormir. Chefe Beto estudava a trilha a ser feita no dia seguinte e traçou um objetivo de chegarem antes do anoitecer em Cotia, um povoado que ficava no pé da Serra Negra.
Acordaram por volta das sete horas e as dores ainda incomodavam. As sete e trinta o dono da casa chamou-os para tomarem café, e ao sentarem, chefe Beto disse ao Sr. Yamaguti que chegariam a Iguape caminhando pelas linhas telegráficas, cortando a Serra Negra. Mas o senhor Yamaguti achou perigoso e disse a eles que o caminho era pantanoso e de rios traiçoeiros. Sugeriu outra rota e os orientou que fossem pelo norte, atravessando o Rio Cachoeira, até chegarem à localidade de Cachoeira de Cima, depois, seguindo em frente, chegariam em Capela da Ribeira.
Depois do café, os cincos escoteiros se despediram da família e partiram, conforme a orientação do Sr. Yamaguti.
O sol estava alto e as pernas ainda doíam. Os pés estavam inchados e latejavam dentro dos sapatos. Canário e Manduca caminhavam descalços. Chefe Beto sentia as mesmas dores e angústias, mas como todo comandante escondia suas fraquezas para não esmorecer a tropa. Lydio revisava o seu diário, enquanto Milton andava calado, vigilante, sempre alerta, para ver se alguma cobra cruzaria o caminho.
Mais experiente Chefe Beto sabia que seus comandados dividiam-se entre o feito e o recuo, e para levantar o moral da tropa, iniciou uma canção conhecida:

Ra-ta-plan! Do arrebol, escoteiros, vede a luz!
Ra-tá-plan! Olhai o sol do Brasil que nos conduz.
Alerta ó escoteiros do Brasil, alerta!
Erguei para o ideal os corações em flor!
A mocidade ao sol da Pátria, já desperta.
`A Pátria consagrai o vosso eterno amor!
Por entre os densos bosques e vergéis floridos
Ecoem as nossas vozes de alegria intensa
E pelos campos afora em cânticos sentidos
Ressoe um hino avante a nossa pátria imensa.
Alerta! Alerta! Sempre alerta!
Um dois! Um dois!
Ra-ta-plan! Do arrebol, escoteiros, vede a luz!
Ra-ta-plan! Olhai o sol do Brasil que nos conduz.
Unindo o passo firme a trilha do dever,
Tendo um Brasil feliz por nosso escopo e norte,
Façamos o futuro em flores antever,
A nova geração, jovial, confiante e forte,
Mas, se algum dia acaso,
A pátria estremecida de súbito bradar:
Alerta, ó escoteiros. Alerta!
Respondendo a Pátria nossa vida,
E as almas entregar, iremos prazenteiros!
Alerta! Alerta! Sempre Alerta!
Um dois! Um dois!

(Letra e música de Benevenuto Cellini)

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A ODISSÉIA DA PATRULHA TOURO


OS PRIMEIROS PASSOS - 16 de Dezembro de 1941.

Às treze horas a Tropa Valle Porto chegou à caserna. Os cinco escoteiros fizeram uma checagem do material e cada um foi separando o que lhe cabia levar. No cinturão havia cantil, faca, escoteira, machadinha, lanterna de pilha e a querosene do tipo manobreiro. Cada um levava o bastão de madeira que serviria como arma contra animais e para sustentar as barracas. Além desses materiais, Milton Horibe levava parte da lona da barraca, Manduca carregava a caixa de enfermagem, Canário uma corda grossa de aproximadamente 18 metros e Lydio seu diário pessoal e a bandeira Nacional. Cada escoteiro tinha um embornal de suprimentos e um para a higiene pessoal, dois uniformes completos: bibico, camisa caqui de manga curta, calça comprida na cor de azul-marinho, botinas pretas e ainda alpargatas de corda para as longas caminhadas. Depois da checagem do material, Maneco Picanço deu ao chefe Beto a importância de 40.000,00 réis para custear a viagem e cada um levou de seu próprio bolso de 10.000,00 a 20.000,00 réis para as emergências.
Às quinze e trinta horas a Tropa Valle Porto deixou a caserna, desfilou pelas principais ruas de Antonina e parou em frente à Prefeitura Municipal, onde a tropa foi recepcionada pelo Prefeito Helio Trevisan. Depois do discurso de louvor aos cinco heróis, o prefeito Hélio os orientou que a mensagem escrita deveria ser entregue ao Presidente Vargas e entregou ao chefe Beto o Livro Diário Oficial para que fossem registrados todos os fatos da jornada. Falaram também diversas autoridades: Tenente da Marinha, Aníbal Luiz Oliveira, Tenente do Exercito João Pinheiro Gonçalves, o Meritíssimo Juiz da Comarca, Dr. Artur Cruz Galvão do Rio Apa, o Promotor Publico Dr. Nahor Ribeiro de Macedo, o Dr. Alfredo Jacob, representante do jornal Gazeta do Povo, o Sr. João da Cruz Leite proprietário do Jornal de Antonina e outras autoridades portuárias.
Depois da cerimônia, o desfile seguiu pela Rua XV de Novembro, passando pela Rua Mestre Adriano (hoje Heitor Soares Gomes), Rua Barão de Tefé (hoje Carlos Gomes da Costa) e Conselheiro Alves de Araújo, até a Avenida Uruguai, onde fizeram uma parada defronte ao Portão Rodoviário. Ali as primeiras lágrimas rolaram, quando as Bandeirantes entoaram o hino “Companheiros Marchemos Unidos”. Manduca não resistiu e chorou, mas continuou com o peito inflado, o corpo ereto como se fosse um experiente comandante de campanha. Canário olhava para o pai, lembrando das surras que levou por fugir de casa para estudar a trilha com o chefe Maneco e os demais companheiros. Chefe Beto, sem perder a imponência, acompanhava o hino, pensando na sua responsabilidade, pois sabia que o sucesso do intento estaria em suas mãos, desde que soubesse conciliar a severidade de um líder, com a sensibilidade de um pai. Lydio e Milton cantavam e olhavam para a multidão, lembrando dos comentários que ouviram sobre a loucura da aventura e das apostas de que não conseguiriam completar o raid.
Depois do hino despediram-se dos seus pais, parentes, amigos e autoridades, e seguiram pela Avenida Thiago Peixoto, acompanhados pelos demais escoteiros e pelo chefe Maneco Picanço. Em frente ao Matadouro Municipal, fizeram a última despedida e Beto recebeu das mãos do chefe Maneco Picanço o manto de Nossa Senhora do Pilar, padroeira dos Capelistas. Olhou a estrada e ordenou aos comandados que o seguissem e ali, daquele ponto, a Patrulha Touro deu oficialmente a largada. Alguns ainda os acompanharam até a primeira curva da Estrada da Graciosa... e aos poucos Antonina se distanciava de seus olhos, enquanto suas mães guardavam no ventre um misto de preocupação e orgulho.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A ODISSÉIA DA PATRULHA TOURO


PRÓLOGO

No início dos anos quarenta o Brasil vivia o Estado-Novo e Getúlio Vargas se perpetuava no poder, depois de enfrentar várias insurreições. A Segunda Grande Guerra eclodia na Europa e o fantasma deste conflito rondava o país com torpedeamento de navios mercantes brasileiros pelos submarinos alemães e italianos. Estes atos obrigaram o Governo Federal fechar os portos para proteger suas embarcações mercantes, ocasionando uma crise sem precedentes às cidades que dependiam da navegação mercante.
Antonina estava inserida neste contexto e os atos do Presidente Getúlio trouxeram sérias consequências à economia capelista. As empresas Loyd Nacional e a Companhia de Navegação Costeira, que operavam, essencialmente, na exportação de madeira e erva-mate, praticamente paralisaram suas atividades deixando um grande número de estivadores sem trabalho.
Na tentativa de superar a crise, insignes capelistas foram ao Rio de Janeiro,  Capital Federal, sensibilizar o Presidente Vargas para que as empresas voltassem a operar em Antonina, mas não foram recebidos. Outra tentativa foi feita pelas senhoras da sociedade capelista, as quais também retornaram a Antonina sem sucesso.
Foi então que o senhor Manoel Eufrásio Picanço, na época chefe da Tropa de Escoteiros Valle Porto, ofereceu ao Prefeito Hélio Trevisan uma saída: entregar em mãos ao Presidente Vargas uma carta constando os motivos pelos quais as duas principais Cia Marítimas deveriam retornar a operar nos cais Antoninenses. Mas o feito precisaria ter grande repercussão e então Maneco Picanço sugeriu que cinco escoteiros deveriam ir a pé entregarem a carta ao Presidente Getúlio Vargas. Movidos pelo desespero, as lideranças locais não questionaram o chefe Maneco e este, ao chegar na caserna, reuniu-se com seus comandados para expor a corporação sobre a necessidade do feito. Imediatamente cincos voluntários ergueram as mãos, pois alguns eram filhos de estivadores que sentiam na pele as dificuldades geradas pelo bloqueio presidencial, eram eles:

Alberto Shtorach Junior
Milton Horibe
Lydio dos Santos Cabreira
Antonio José Gonçalves
Manoel Cabral

Para esta heróica e memorável missão a "Patrulha Touro" foi formada. A chefia do grupo foi dada ao escoteiro Alberto Shtorach Junior, o Beto, por ser o mais velho – tinha 21 anos - e acabara de servir o exército. Milton Horibe, 16 anos, era o guia da missão e responsável por armar as barracas. Era um dos fundadores da Tropa Valle Porto e participou do ajuri Joinville – São Paulo como guia do primeiro Grupo Tefé. Lydio dos Santos Cabreira foi designado como monitor da Tropa Touro e participou do Raid a pé Antonina - Curitiba, perfazendo um trajeto de 82 quilômetros, juntamente com os escoteiros Rubens Nargone Vieira, Lourival Silva e Alceu Pereira da Silva, em 05 de maio de 1940. Antonio José Gonçalves, o Canário, era o escoteiro mais novo, contava na época com 15 anos e sua tarefa era ajudar Manoel Cabral, o Manduca, com a comida. Canário era submonitor da Patrulha da Onça e tinha uma vantagem sobre os demais: só caminhava descalço.
Com a tropa formada, restava detalhar a estratégia da caminhada, mas antes Maneco Picanço chamou à caserna os pais dos escoteiros e os fez assinar um termo, eximindo o Grupo Escoteiro Valle Porto de qualquer responsabilidade se algo de grave acontecesse aos membros da missão. O material a ser levado foi providenciado, estudaram, cansativamente, a trilha a ser percorrida e decidiram pela mais curta, porém mais difícil: irem pelo Cacatu, cortando a Serra Negra.

O JEKITI NOS ANOS 60 - foto do amigo Eduardo Nascimento

O JEKITI NOS ANOS 60 - foto do amigo Eduardo Nascimento