"Monocrômica, anacrônica, atraente, arcaica Antonina, não amo-te ao meio, amo-te à maneira inteira."
Edson Negromonte.



quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Dr. CARLINHOS MAIA, O MÉDICO DOS POBRES


Por Luiz Henrique Ribeiro da Fonseca

Quando tinha apenas um ano de idade fui acometido de uma doença, cujo sintoma era de uma febre muito alta. O diagnóstico era de Maleita e fui tratado com Quinino por muito tempo. A febre diminuía, mas em seguida voltava e minha mãe, já no limite do seu discernimento, foi atrás de um jovem médico, para espanto do restante da família. Logo na primeira consulta o jovem médico mandou imediatamente suspender a medicação e me receitou um antibiótico, pois meu caso era de infecção no ouvido. Em poucos dias estava curado e o jovem médico, de nome Dr. Carlos Eduardo Maia, tornou-se o médico da nossa família. 
Depois, já na juventude, meus contatos com Dr. Maia não passaram de uns poucos cumprimentos, quando ele ia à casa dos meus avôs para uma conversa ou alguma consulta. Ele entrava obsequioso, com o chapéu na mão, com o mesmo sorriso apaziguador de sempre e perguntava como andava a saúde dos dois. Depois se sentava ao lado deles e continuava com os questionamentos sobre os sintomas e, se houvesse necessidade, escrevia-lhes alguma receita.
Enquanto ele conversava com meus avós eu o observava de perto. Era impossível não prestar atenção naquele suave tom de voz, nos gestos lentos, porém precisos, nos olhos ternos e vacilantes, que mostravam uma timidez dura e fascinante. Na hora da despedida eram as mesmas palavras curtas e confortantes, a mesma suavidade no adeus e o mesmo desdém nos lábios quando meus avós perguntavam o valor da consulta.
Depois que ele saía deixava em mim uma flutuante sensação de que herdara dele alguma riqueza intangível, algo que me impelia a querer ser mais que um menino que varava os dias atrás de uma bola ou que desejava bons presentes no Natal. Meus avós ainda conversavam sobre Dr. Maia, afirmando um para o outro do constrangimento por ele nunca cobrar as consultas e por ele sempre trazer um remédio sem apresentar a conta.
No dia em que meu avô morreu, em meio à minha tristeza, consegui reparar as lágrimas escorregarem pelo rosto do Dr. Maia. Na certa ele se lamentava da sua impotência, da dificuldade em aceitar as reservadas da vida e, naturalmente, ser obrigado a se despedir do amigo.
Ele ficou o tempo necessário para não constranger a família e quando se retirou olhou pela última vez para meu avô e disse algum conforto de sua doutrina; depois saiu de cabeça baixa, atento para não tropeçar na dor que entornava de sua alma.
Os anos passaram e nunca mais o vi. Só soube de sua morte tempos depois do ocorrido e de alguns causos sobre a sua fraternidade, entre os quais, a conta que tinha na Farmácia do Vitório, onde ele assistia os mais humildes com um dos padrões que recebia como servidor público.
Doutor Maia sabia como ninguém construir um império, sabia como nenhum médico ser bem sucedido financeiramente na profissão; também sabia como ninguém ser reverenciado por onde passasse e como influenciar os rumos de uma grande cidade. Mas renegou tais escolhas em troca de um império de bondade, em ser bem sucedido pelo reconhecimento daqueles que não podiam pagar pelos remédios necessários e influenciar os rumos de uma pequena cidade, através do exemplo das suas boas atitudes.
Portanto, ao Dr. Maia minha singela homenagem e que seus exemplos continuem nos influenciando para que a vida seja mais digna de ser vivida.

4 comentários:

Edson Negromonte disse...

Doutor Maia, grande figura da nossa medicina, que merece ser lembrado. Valeu, Luiz!

Antonio Bento disse...

Obrigado. Dr. Carlos Maia.

Anônimo disse...

Meu avô foi o homem mais virtuoso que já conheci no até então pequeno transcurso da minha vida, procuro conduzir meus atos e decisões almejando ser metade do homem que um dia ele o foi.
Fiquei muito comovido ao ler essa homenagem ao meu querido avô, gostaria de lhe agradecer com os meus mais sinceros votos, poís o retratou com muito carinho e ternura, como indubitavelmente o merecia.
Um grande e fortissimo abraço
Bruno Maia Barbieri

Anônimo disse...

Sou muito feliz por ter o nome de meu grande avô Carlos Eduardo Maia,lembro de dias maravilhosos que passei em Antonina com ele.Obrigado pela homenagem.
Abraços.
Carlos Eduardo Maia Neto

O JEKITI NOS ANOS 60 - foto do amigo Eduardo Nascimento

O JEKITI NOS ANOS 60 - foto do amigo Eduardo Nascimento